O efeito Mario Draghi e o euro

Análise: Gilles Lapouge

O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2012 | 03h09

Há três dias, ele falou e disse que "fará de tudo para preservar o euro". E acrescentou num tom misterioso: "Acreditem, será suficiente". Desde então, todas as grandes instituições financeiras se perguntam o que Mario Draghi terá em mente; qual será o grande plano que ele pretende acionar com os 17 países da zona do euro.

Até o momento, dispomos de poucas informações a respeito. Mas um fato é certo: as poucas palavras de Mario Draghi bastaram para que as Bolsas se recuperassem. Ontem, a Itália deveria tomar dinheiro emprestado nos mercados. Conseguiu fazê-lo a um juro inferior ao das semanas passadas. Os juros italianos são repassados abaixo dos 6%. Será que Draghi é mágico? Basta que ele fale para a tempestade acalmar? Ele já ganhou apelidos lisonjeiros: "Super Mario" e "São Mario, boca de ouro".

Outras vozes são mais amargas. Elas lembram que, antes de dirigir o BCE, Draghi era uma figura importante do Goldman Sachs, onde exercia o cargo de vice-presidente. Umas de suas missões, segundo o jornalista francês Marc Roche, era "vender o produto financeiro swap que permitia dissimular uma parte das dívidas soberanas".

Podemos imaginar o uso deletério que as más línguas fazem destas informações: "É preciso reconhecer", afirmam, "que Mario Draghi é the right man in the right place. Ele trabalhou no Goldman Sachs que está sendo processado pela justiça americana porque esteve na origem da crise dos subprimes. Ou seja, uma vez que Draghi aconselhava os financistas nas trapaças na questão da dívida soberana dos Estados, não poderia haver pessoa mais indicada do que ele para pôr em ordem as lastimáveis finanças europeia".

E quanto ao famoso plano desconhecido que Mario Draghi vai lançar? Segundo o jornal Le Monde, o BCE retomaria a controvertida recompra dos títulos da dívida no mercado secundário europeu, mas com o apoio do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FESF, na sigla em francês) ou de seu sucessor, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MES). Alguns obstáculos atrasam o envio desta "boia salva-vidas", porque, antes de mais nada, o BCE deve fazer uma solicitação ao FESF, que só poderá agir depois de receber o sinal verde do grupo do euro (os 17 ministros da zona do euro).

Reinicia-se assim um debate sobre a vocação do BCE. A instituição, ultraortodoxa e influenciada por Angela Merkel, recusa-se a desempenhar o papel exercido pela maior parte dos bancos centrais: injetar liquidez nas economias quebradas.

É preciso compreender que certas capacidades de um banco central são infinitas. Desde o fim do padrão ouro, as moedas não são mais tributárias de uma garantia ouro. A cotação do euro, do dólar, do iene não é mais determinada em função de certas reservas metálicas. O BCE não precisa manter uma relação precisa entre o número de notas emitidas e o metal. O banco central faz o que bem entende, a única regra que vale continua sendo a de não provocar uma hiperinflação.

Qual será o interesse em escolher esse caminho? É que ele seria a melhor maneira de fazer com que os especuladores devolvessem o que roubaram. Eles não passam de "selvagens" sem fé nem lei, cujo único objetivo é arrancar nacos de carne do corpo dos países em dificuldade. Mas, se esses especuladores souberem que os países atacados podem contar com os recursos ilimitados fornecidos pelo BCE, deixarão a presa e se refugiarão em suas tocas para lamber as feridas. Os ortodoxos replicam: "Então é isto? Agora imprimir dinheiro se tornará dever do Estado?"

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