O elogio do calote

Na edição de 9 de junho, o Financial Times, uma das "bíblias" das finanças globais, publicou, em sua prestigiada coluna "Lex", um texto sobre o lançamento, no mercado internacional, de US$ 1 bilhão em bônus da Islândia. O título do artigo, que relatava a boa aceitação dos bônus islandeses, não deixava dúvidas sobre a mensagem da matéria: "Calote não significa morte".

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2011 | 00h00

Além de espalhar cinzas de vulcões que tumultuam o tráfego aéreo europeu, a Islândia, pequeno e improvável país nórdico, com pouco mais de 300 mil habitantes e temperaturas máximas no verão abaixo de 15 graus centígrados, ficou recentemente célebre por distribuir ativos tóxicos e, literalmente, quebrar em meio à crise de 2008.

Agora, volta a ser lembrada: nem três anos depois do default, seus títulos estão sendo colocados na praça em bases muito melhores do que os pagos por Grécia, Irlanda e Portugal.

A Islândia, por suas peculiaridades, será sempre um caso à parte. Mas nem por isso o Financial Times deixou de concluir, com base no exemplo islandês, que contrariar credores pode não ser tão grave como muitos, inclusive o Banco Central Europeu (BCE), insistem em assegurar. Segundo o jornal, a opção por um calote soberano será tão mais realística quanto mais viável for o plano de recuperação apresentado.

É óbvio que o caso grego - melhor seria dizer o caso europeu - é muito mais complicado do que o islandês. Menos pelo tamanho econômico da Grécia do que pelo suposto efeito dominó que um calote grego deflagraria no sistema bancário global.

O próprio BCE reluta em aceitar uma reestruturação das dívidas gregas, entre outras razões, porque, sabe-se agora, está perigosamente entupido de títulos podres derivados da ajuda, pelos bancos centrais dos países europeus em dificuldades, aos bancos privados locais e destes a investidores internacionais.

Só a Alemanha, até porque, no fim das contas, é quem mais pode bancar o financiamento da crise, insiste na participação dos credores nos pacotes de resgate da Grécia. O máximo, no entanto, que a chanceler Angela Merkel tem conseguido de seus parceiros da União Europeia é o compromisso frouxo de batalhar por uma adesão voluntária do setor privado a uma reestruturação das dívidas gregas.

Parece cada vez mais claro que o arrastar sem solução definitiva da crise grega se deve aos dois pontos centrais da mensagem transmitida pelo Financial Times: não há nem um plano de recuperação viável nem um esforço genuíno para encarar uma reestruturação das dívidas gregas.

De um lado, o plano de recuperação que se tenta fazer descer goela abaixo do governo grego é considerado economicamente incerto e politicamente inviável. De outro, fingir ser possível cobrar as dívidas gregas sem impor perdas aos credores só tende a levar ao pior dos mundos de um default unilateral não negociado.

A conotação assustadora da palavra costuma encobrir a natural integração do calote à vida econômica. Sua sombra está presente nas leis de recuperação judicial e falência, nos spreads bancários, nos empréstimos compensatórios das instituições multilaterais a países, nos custos dos financiamentos em geral.

Não poderia ser diferente, pois o calote é a contraparte do risco na moeda econômica. Aceitar sua existência e organizar suas consequências deveria ser o caminho natural

Um sistema econômico que tenha no risco um dos seus pilares, como é o caso do capitalismo de livre mercado, perde função quando o calote é extirpado de suas engrenagens por blindagens estatais.

Economias desreguladas, nas quais as forças do mercado atuam livremente, podem ser muito eficientes, mas desde que a assunção de riscos que elas próprias estimulam seja naturalmente delimitada pelas eventuais perdas impostas por calotes organizados.

Mais do que o medo do default, deveria fazer mais sentido temer o "risco moral" propiciado pela fuga ao castigo por ganância, irresponsabilidade ou incompetência. Assustador de verdade é ver que, depois da conflagração de 2008, as providências para conter exposições excessivas de bancos e investidores financeiros a riscos idem quase nada evoluíram. E que, diferentemente do desejável, o número de instituições "grandes demais para quebrar", de acordo com avaliações do próprio mercado, tende a crescer uns 40% nos próximos cinco anos.

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