Infográfico/Estadão
Infográfico/Estadão

‘O empresário não quer falar com partidos’, diz especialista

Para professor do Insper, Sérgio Lazzarini, investigações da Lava Jato e da Zelotes deverão mudar relação entre governo e setor privado

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2016 | 17h06

As investigações em curso das operações Lava Jato, que teve início com a corrupção na Petrobrás, e da Zelotes, de sonegação fiscal, deverão mudar a relação entre o governo e o setor privado, afirma Sérgio Lazzarini, professor do Insper. “A grande novidade (no caso da Lava Jato) é que estão colocando as pessoas na cadeia.” A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual deverá ser o impacto das operações Lava Jato e Zelotes na economia do País?

Não tem como mensurar o tamanho desse estrago, mas o impacto é muito grande na economia. Por isso, estão mudando as relações do setor público com o empresariado.

Quais são essas mudanças?

Temos vivenciado o que chamo de capitalismo de laços, em que o governo controla a máquina pública, como bancos, caso do BNDES; empresas grandes, como Petrobrás; e os fundos de pensão. Essa máquina estatal se conecta com o empresariado, que é beneficiado com créditos subsidiados e favorecimentos. E, para fechar esse ciclo, o empresariado apoia esse sistema político, principalmente com doações de campanha. Esse é o grande esquema que a Lava Jato está mostrando de maneira bastante explícita. Com os avanços da Lava Jato, que estão implicando em punições efetivas, os empresários deverão mudar o jeito de fazer negócio. Tem de pôr travas e mais travas.

Esse modelo de ‘capitalismo de laços’ é típico de governos mais populistas?

É histórico no Brasil, desde a monarquia. O governo Getúlio Vargas sempre deu sinais dúbios. Por um lado, tentou modernizar a burocracia pública, mas, ao mesmo tempo, era intervencionista. Em um passado mais recente, durante o processo de privatização (no fim dos anos 1990, durante o governo Fernando Henrique Cardoso), houve uma tentativa de reduzir a participação do Estado, embora o governo tenha permanecido com várias posições em companhias, via BNDES e fundos de pensão de empresas estatais.

A corrupção ganhou mais força nos últimos anos?

No governo do PT, acho que teve uma conjunção de dois fatores: uma ideologia mais voltada para o Estado e a outra foi o isolamento político. Na época das privatizações, as estatais estavam mais blindadas, o que não quer dizer que não tinha corrupção. Mas houve, durante a gestão PT, um enfraquecimento das agências reguladoras, o que permitiu ao governo intervir mais.

Mas muitos empresários foram beneficiados...

Quando isso ocorre, o ciclo fica mais operante. O empresário quer se conectar. Estão criando uma empresa para produzir sondas? Queremos entrar nessa. Vão criar campeões nacionais? Nós também queremos.

O que muda com a saída da presidente Dilma Rousseff? Michel Temer conseguirá mudar alguma coisa?

Acho que menos por convicção, mas por necessidade. A melhor analogia é o pêndulo. O País tem de fazer o ajuste fiscal, senão quebra.

Qual a lição da Lava Jato?

A Lava Jato mostra que a formação desse ciclo estava ficando escancarado. A diferença é que agora está se colocando gente na cadeia. Isso é uma grande novidade. Para deter a corrupção, o principal fator é a punição efetiva. Percebe-se, agora, que a maioria dos empresários está com medo. Ninguém quer falar com partido político. Isso é benéfico e interrompe aquele ciclo.

Já há mudanças evidentes?

A tradição do brasileiro é ser clientelista. Tem de mudar. O empresário reclama que tem imposto, coloca o pato amarelo lá na Paulista (avenida Paulista), mas não quer abrir mão do subsídio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.