O empresário que não deixou de acreditar no Brasil

Um dos maiores empreendedores da história do País, Antônio Ermírio de Moraes, presidente de honra do Grupo Votorantim, morre aos 86 anos

O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2014 | 02h01

A voz dos empresários brasileiros, por décadas, teve nome e sobrenome: Antônio Ermírio de Moraes. Líder de um império com 96 empresas, fundado pelo pai na cidade de Votorantim (SP), o empresário ganhou notoriedade pelos ideais nacionalistas, por defender o investimento e a produção industrial e pelo jeito espartano com o que levava a vida. Conquistou tamanha autoridade como empreendedor que virou uma referência não só para a classe empresarial, mas para toda a sociedade brasileira.

Trabalho, para Antônio Ermírio, era uma religião - a que ele se dedicou quase que integralmente, inclusive aos fins de semana, e sem férias. Em algumas entrevistas que concedeu, disse que não pensava em aposentadoria: queria trabalhar até o dia de sua morte. Problemas de saúde, no entanto, tiraram o empresário do dia a dia dos negócios no início dos anos 2000 e, definitivamente, em 2008.

Antônio Ermírio de Moraes morreu na noite de domingo, às 21h, em sua casa, de insuficiência cardíaca. O corpo do empresário foi velado no salão nobre do Hospital Beneficência Portuguesa, entidade financiada pelo Grupo Votorantim e que foi presidida pelo próprio Antônio Ermírio. O enterro foi no fim do dia no cemitério do Morumbi, onde também estão sepultados os corpos dos filhos Mário e Carlos - os dois vítimas de câncer, em 2009 e 2011.

O empresário teve nove filhos com Maria Regina de Moraes, com quem estava casado desde 1953. Antônio Ermírio costumava dizer que devia à mulher uma verdadeira lua de mel, porque a que tiveram foi atribulada, com visitas a fábricas de alumínio na Europa e telefonemas para resolver problemas com uma falência. "Não foi uma viagem perdida. Pelo menos ela aprendeu coisas interessantes sobre alumínio...", brincava. Só tirou férias duas vezes, a mais recente quando passou algumas semanas com a mulher na casa de praia da família, no Litoral Paulista, para se recuperar de um tratamento médico.

Ontem, durante o velório, a filha Regina de Moraes falou do pai e de sua devoção ao trabalho. "No fundo, a paixão dele era a fábrica. Era a forma como ele amava a vida." Seu maior legado para a família, disse Regina, foi a humildade. "Durante muitos anos, ele andou de Santana. Só no fim da vida se deu ao luxo de ir para a praia de helicóptero. E, no trajeto, pedia para o piloto sobrevoar a fábrica."

Capitão da indústria. A dedicação era total para manter o conglomerado que, no ano passado, faturou R$ 31,3 bilhões. Formado em Engenharia de Metalurgia na Colorado School of Mines, começou a trabalhar na empresa da família assim que voltou dos Estados Unidos, nos anos 40. Expandiu os negócios rapidamente e, no início da década passada, deu início ao processo de profissionalização das várias empresas do grupo, compartilhando o comando entre filhos e sobrinhos.

Hoje, a empresa tem 43 mil funcionários em mais de 20 países, mas Antônio Ermírio relutou à internacionalização. Por anos, criticou as multinacionais e dizia que, no dia em que investisse em outro país, deixaria de ser brasileiro.

Ele mostrava-se constantemente preocupado com a falta de rumo do País e com a ausência de uma política industrial. Reclamava dos juros altos cobrados pelos bancos e acusava o governo de dar tratamento privilegiado ao setor financeiro em detrimento da indústria e do comércio. Ironicamente, mais tarde, ele próprio criou um banco. "Fico triste em ver que uma coisa tão fácil ganha mais do que um negócio que me tomou a vida inteira para trabalhar; um trabalhão de 50 anos", disse, comparando o banco Votorantim à Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), seu xodó entre os negócios do grupo.

Questões sociais também eram alvo de preocupação do empresário. Antônio Ermírio foi um dos mais célebres exemplos de dedicação à filantropia no País. Primeiro, abraçou a área da saúde por meio de atividades à frente da Cruz Vermelha. Depois, assumiu o hospital Beneficência Portuguesa, de São Paulo, um dos maiores do País. "Eu não me sinto um parasita da nação. Sou um homem rico, mas que tem ajudado, na medida do possível, quem precisa da gente", declarou.

As mazelas do País levaram o empresário a enveredar para o mundo do teatro. Ele escreveu três peças que trataram de temas agudos: saúde, educação e a relação de dependência das empresas em relação aos bancos. O primeiro texto, Brasil S.A., levou quase uma década para ser concluído.

Nos anos 80, Antônio Ermírio decidiu que não queria só criticar e tentou uma carreira política - contrariando o desejo de seu pai, que foi senador pelo Estado de Pernambuco. Em 1986, o empresário foi candidato ao governo do Estado de São Paulo pelo PTB, mas perdeu a disputa para Orestes Quércia e jurou nunca mais se candidatar.

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