O endividamento bloqueia uma reação da indústria

O governo não deve ter dado atenção ao alerta do Fundo Monetário Nacional de que o modelo de crescimento por estímulo à demanda doméstica não é apropriado nesta conjuntura.

O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2012 | 03h03

Há uma situação aparentemente paradoxal: os salários continuam crescendo, em valor real, na maioria das convenções coletivas, isto é, acima da inflação. No entanto, a demanda doméstica está relativamente estável, enquanto a produção industrial, apesar de todos os incentivos, continua se reduzindo.

É o resultado dos erros de uma política de oferta crescente de crédito ao lado de redução do custo do dinheiro com efeito duplo: aumentou o número de famílias em busca da compra de bens - o que é positivo - mas, paralelamente, aumentou o endividamento dessa nova classe, e também das outras, que tiveram necessidade imperiosa de procurar reduzir suas dívidas.

Isso explica por que, apesar do aumento real dos salários, a demanda doméstica pouco vem se beneficiando, ao contrário do que se poderia imaginar, desde que o salário mínimo foi reajustado acima de 14%, enquanto a inflação recuava.

Podia-se esperar ainda que a indústria se aproveitaria dessa nova situação, mas é o contrário que se verifica. O setor manufatureiro, apesar dos incentivos - na verdade, pontuais -, não está investindo, pois, na fase anterior ao aumento da demanda no varejo, retinha grandes estoques e a preocupação principal era de reduzi-los, isto é, atender à demanda sem ter que aumentar a produção. Não houve e não há grandes investimentos na indústria, o que implica queda da produtividade que encarece os custos em geral.

Ocorre que a indústria nacional, que se habituara a importar parte significativa dos componentes e insumos que entram nos produtos oferecidos ao comércio varejista, passou a arcar como o aumento de preços dos produtos importados em razão da desvalorização do real ante o dólar. Esse aumento do câmbio neutralizou em boa parte as vantagens da redução das taxas de juros que era a reivindicação principal do setor manufatureiro. Assim, continuamos a aumentar as importações, reduzindo o efeito positivo da fase em que os produtos agrícolas tiveram seus preços em elevação.

A economia responde cegamente a situações de momento: enquanto o governo continuar na direção de uma política só de incentivos ao consumo, continuaremos sem solução para o crescimento da produção e da produtividade industrial.

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