O endividamento deve ser medido pela renda pessoal

Para segurar a demanda doméstica, o governo estaria finalmente decidido a reduzir o crédito a pessoas físicas. Mas, embora a nosso ver a medida seja muito urgente ? caberia ao Conselho Monetário Nacional ?, nada se fez ainda.

, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2010 | 00h00

O argumento dos que defendem o aumento do crédito é que no Brasil o seu volume é muito reduzido em relação ao PIB, e são os empréstimos que permitem impulsionar a demanda de bens e serviços, que por sua vez impulsiona a produção nacional. Mas convém interpretar com cuidado essa relação e compará-la com outros países.

Em nossa edição de domingo, nosso colega do Rio de Janeiro Fernando Dantas expôs dados interessantes sobre o tema. Partindo do fato de que o crédito para consumo pessoal representou 15% do PIB em 2009, comprova-se que não estamos tão longe dos Estados Unidos, onde o crédito pessoal equivale a 17,2% do PIB.

Mas há um dado que é preciso destacar: em 2002 as operações (que excluem o crédito imobiliário nos dois países) representavam no Brasil apenas 5,1% do PIB. Verifica-se, assim, que o aumento foi muito rápido, como foi o aumento do consumo doméstico, não permitindo à indústria se adaptar tão rapidamente à evolução da demanda, que foi em grande parte ? e ainda é ? atendida pela importação.

O crédito para as pessoas físicas cresceu, em valor real, 249%, do final de 2003 ao final de 2009, segundo os dados divulgados pela consultoria LCA, o que se traduziu, naturalmente, por um forte aumento da demanda e, é claro, por um forte aumento também das dívidas das famílias.

Os Estados Unidos são um país conhecido como sociedade de consumo e com baixo nível de poupança. O comprometimento dos orçamentos familiares com o serviço das dívidas, em relação à renda, é de 15% nos Estados Unidos, ante 18% no Brasil. Levando em conta o PIB per capita norte-americano e o brasileiro (US$ 46.400 e US$ 9.094), verifica-se um saldo de US$ 39.440 pós serviço da dívida, para as famílias norte-americanas, e de US$ 2.457, para as brasileiras.

Caberia, pois, levar em conta essa realidade para avaliar os riscos dos empréstimos às pessoas físicas no Brasil, que estão aumentando com a ampliação dos prazos dos financiamentos (de 312 dias, em 2002, para 526, em 2009). E o crédito imobiliário aumenta esse risco, por se tratar de um crédito de longo prazo.

Nessas condições se justificariam medidas para conter o crédito pessoal, dando-se prioridade ao crédito imobiliário.

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