O engenheiro que construiu o Itaú

?Desvirando a Página - A Vida de Olavo Setubal? conta a história do empresário que levou o banco ao topo no País

Nair Keiko Suzuki, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2008 | 00h00

"Ele nunca olhava para hoje, nem para amanhã, mas tinha sempre o olhar lançado fixamente lá na frente, bem distante". O depoimento de Roberto Setubal sobre o seu pai no finzinho do livro Desvirando a Página - A Vida de Olavo Setubal poderia ser a legenda da capa - uma expressiva foto do biografado olhando para longe, clicado pelas lentes de Nellie Solitrenick.A frase também traduz a bem-sucedida carreira de Olavo Setubal como banqueiro e empresário que tinha visão do futuro e saía na frente dos concorrentes com suas inovações tecnológicas. Pragmático, era extremamente racional. Ouvia seus pares e tomava decisões rápidas. Enquanto avaliações eram feitas, ele já estava colocando em prática suas decisões. Graças a ele, o Banco Itaú hoje lidera o ranking dos bancos privados brasileiros e as empresas do grupo, como Duratex, Itautec e Elekeiroz, permanecem sólidas. Pelo seu temperamento, Olavo Setubal surpreendeu os autores da sua biografia do começo ao fim do livro. Os escritores e jornalistas Ignácio de Loyola Brandão e Jorge Okubaro contam que o livro foi encomendado pela família há cerca de três anos. A partir de 2006, passaram a entrevistar Setubal todas as semanas. De cara, ele deu o mote: "Minha vida está dividida em cinco fases: infância e adolescência, vida acadêmica, a vida empresarial, o homem público e o meu afastamento do dia-a-dia executivo". Obedientes, Loyola e Okubaro seguiram à risca a seqüência predeterminada. Começam falando dos avós de Olavo, o capitão Antônio de Oliveira Leite Setubal e a dona Mariquinha, que tiveram 11 filhos. Paulo Setubal, o pai de Olavo, era o penúltimo. A partir daí, as histórias vão se sucedendo, com riqueza de detalhes. Nomes, datas, muitas datas, comentários, reminiscências, trocas de correspondências, vida familiar, vida empresarial, vida pública, vão se desencadeando ao longo de 18 capítulos e mais de 500 páginas. Fotos intercalam alguns capítulos.Olavo Setubal morreu, aos 85 anos, em agosto deste ano. O livro já estava pronto, a família já tinha lido o original, só faltava o próprio Olavo, que estava internado no hospital Sírio Libanês, convalescendo de uma cirurgia cardíaca. Sua saúde já estava debilitada pela operação para colocação de uma prótese no fêmur que havia quebrado ao cair em casa, durante a última viagem que fez a Paris, em 2007.No hospital, o estado de saúde de Olavo piorou e ele não conseguiu ler o texto com a sua biografia, que permaneceu na cabeceira da cama. Mas tomou conhecimento de alguns trechos, que foram lidos a seu pedido, e aprovou o título e a capa do livro antes de ser sedado.Com a sua morte, Loyola e Okubaro deram o livro por concluído, mas, antes, incluíram mais um capítulo, de seis páginas, relatando seus últimos dias. Lá estão a emoção na despedida de cada um dos sete filhos - Paulo, Olavo Júnior, José Luiz, Roberto, Maria Alice, Alfredo e Ricardo - , a desolação da viúva, Daysi, o concorrido velório na sede do Centro Empresarial Itaú Conceição, em São Paulo, e o desfecho final com o relato da última cerimônia, em Águas da Prata. Atendendo ao seu desejo expresso por escrito, suas cinzas foram depositadas entre as cerejeiras e as esculturas de Maria Martins no jardim da mansão de veraneio da família."Há dentro de mim uma estranha sensação de desconforto, inquietação", confessou Loyola, no artigo publicado no Estado, em 5 de setembro último. Sob o título O inquietante ofício de escritor, o cronista do jornal fala do livro sobre Setubal e comenta: "Estranho ofício este nosso, o de escritores que mergulham na própria vida para produzir ficção a partir da realidade e penetram na vida dos outros com pás, escavadeiras, e métodos analíticos, para recriar vidas reais. Ao biografarmos pessoas mortas, é uma sensação. Mas quando o livro termina exatamente no momento em que o outro morre?".Okubaro, que além de escritor é editorialista do Estado, reconforta Loyola: "Sempre digo que não dá para escrever uma boa biografia se o biógrafo não tiver sentimentos em relação ao biografado - de simpatia, de amor, de paixão, de ódio, de rancor, que seja. Não se escreverá uma boa biografia se não houver esse sentimento, se o biógrafo agir com indiferença em relação ao biografado. Nós nos afeiçoamos, com o tempo, com o biografado, começamos a entendê-lo, começamos a gostar dele, de sua família, de sua vida. É isso. Não é deixar de ser profissional. É ter sentimento humano".Fidelíssimo à narrativa do próprio Olavo e dos parentes e amigos entrevistados, o livro contém revelações pormenorizadas de episódios - principalmente relacionadas à carreira política - que, passada a época em que ocorreram, não foram mais exploradas. As manobras do chefe da Casa Civil do governo Geisel, Golbery do Couto e Silva, do ex-presidente Jânio Quadros, do ex-governador Paulo Maluf, e do ex-vice-governador José Maria Marin, em episódios diferentes, jogaram por terra a pretensão política de Olavo Setubal de ser governador de São Paulo. Essas manobras são contadas em detalhes, com o nome de todos os políticos envolvidos nas intrigas.Na vida pessoal, são corajosas as transcrições de declarações que mostram conflitos íntimos da família. Dois anos depois que morreu sua primeira mulher, Matilde de Azevedo, a "Tide", com quem teve os sete filhos, Olavo começou a namorar Daysi Prado (nascida Oliveira Salles), que teve de fazer um trabalho de formiguinha para conquistar cada um dos enteados. E conseguiu. O melhor relato que compara a mãe e a madrasta é o do caçula Ricardo: "Acho que ambas têm em comum uma exuberante alegria de viver. Mamãe gostava de coisas culturais, Daysi, de coisas sociais. Mamãe seria alguém olhando a sociedade com olhos críticos, Daysi é alguém da sociedade olhando para a sociedade, mulher que tem um enorme poder e facilidade de se relacionar e ela conseguiu mostrar esse lado para o meu pai". Daysi e Olavo permaneceram casados por 29 anos, até a morte dele. Na vida acadêmica, Olavo tinha verdadeira paixão pela Escola Politécnica e pela USP. "A Poli foi um período de vida muito feliz. Rompeu meu horizonte, mostrando-me um mundo mais amplo", afirmou. "A USP sempre teve essa grande vantagem de ser um caldeirão de todas as culturas e isso me marcou profundamente."Na vida empresarial, o destaque era o banco: "O Itaú foi o salto fundamental da minha vida". Quando ainda era prefeito, correu a notícia que Setubal fora convidado pelo então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, e por seu sucessor indicado, Karlos Rischbieter, para ocupar a presidência do Banco Central. "É verdade?" perguntou-lhe a repórter Inês Camargo, do Estado. "Banco por banco, fico com o meu", respondeu Olavo. E voltou para o Itaú quando deu por encerrada a sua carreira política. Lamentavelmente, Olavo Setubal não pôde participar da finalização da operação que uniu, 68 dias depois da sua morte, o Itaú ao Unibanco. O banco que ele construiu hoje é o número um entre os privados nacionais.Serviço - Desvirando a Página - A Vida de Olavo Setubal. De Ignácio de Loyola Brandão e Jorge J. Okubaro. Global Editora. 527 páginas. R$ 65

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