O enigma Trump

Aqui também as precondições para surgir um ‘salvador’ nacionalista estão lançadas

Josef Barat*, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2017 | 05h00

A decisão de Donald Trump de retirar os EUA do Acordo de Paris foi um rompante populista equivalente à convocação do plebiscito sobre o Brexit no Reino Unido. Decisões impetuosas em temas complexos trazem, em geral, consequências indesejadas. Trump foi eleito por ter levantado questões graves de insegurança e perdas que afligem o cotidiano do cidadão norte-americano. Problemas de natureza macroeconômica, como o vultoso déficit fiscal, subsídios excessivos e perdas na balança comercial, não eram tão perceptíveis para a população. Mas a degradação das infraestruturas, a desindustrialização, a redução do emprego em segmentos tradicionais, o crescimento de ocupações de baixa qualidade, a perda de protagonismo no cenário mundial, a queda generalizada de renda e a degradação do ensino público e de serviços de saúde eram muito presentes na vida dos norte-americanos. Compreende-se, pois, que a eleição de Trump tenha sido consequência de apreensões e temores – alguns reais, muitos imaginários – quanto ao futuro do país.

A eleição de um presidente populista no país não é usual e a comparação mais frequente é com Andrew Jackson, que exerceu o cargo no início do século 19. Mas as instituições de Estado norte-americanas sempre souberam impor freios para evitar, em geral, a ascensão do populismo. Trump é um “ponto fora da curva” na tradição republicana e inverteu os termos da equação quanto ao liberalismo e ao protecionismo, contrariando os princípios republicanos do livre-comércio e a ampliação de acordos comerciais multilaterais.

Não se pode esquecer que o processo de globalização foi capitaneado por empresas americanas que expandiram e descentralizaram suas cadeias produtivas, principalmente a partir dos anos 70. Há segmentos importantíssimos da economia dos EUA que dependem do espalhamento de suas cadeias, o que acabou por tornar o processo de globalização irreversível. Por outro lado, vêm ocorrendo pesados investimentos numa série de alternativas energéticas concretas. Isso torna os ciclos do carvão e do petróleo gradualmente menos determinantes no destino da economia dos EUA.

Trump foi eleito fundamentalmente pelos deserdados da globalização. Ele falou para Pittsburgh e o “Anel da Ferrugem”, para os operários que perderam empregos e agricultores temerosos da competição externa. Mas como a visão “para dentro” de Trump vai se coadunar com a força, produtividade, geração de renda e mudança dos padrões de relações de trabalho dos segmentos econômicos mais globalizados? Esse parece ser o nó da questão e o foco de futuras tensões políticas e sociais no governo Trump, pois, em vez da promessa de diminuir, haverá uma ampliação dos graus de incerteza que envolverão a sociedade americana.

Como ele conduzirá o embate entre a “nova economia” (Vale do Silício, alta tecnologia, indústria criativa e economia de baixo carbono), que tem fortíssima e irreversível inserção mundial, e a “velha economia” (siderurgia, mineração, petróleo, indústria tradicional, etc.), que foi gradualmente sendo “transferida” para países menos desenvolvidos? Essa é uma questão complexa, que requer a visão de um estadista, especialmente num mundo conturbado. Trump não tem as qualidades e o conhecimento de um grande estadista. Se as vacilações e a falta de firmeza de Obama foram muitas vezes nocivas para os EUA, no geral seu governo representou grandes avanços e novas visões em relação à economia e à sociedade. Mas as idas e vindas de Trump e seus rompantes midiáticos e populistas – fora do roteiro normal das políticas de Estado americanas – podem comprometer o futuro do país.

Trump é um enigma a ser decifrado. Querendo ou não, os EUA têm um papel determinante nos destinos do mundo e um presidente americano não pode menosprezar esse papel. E o que o Brasil tem que ver com tudo isso, neste momento? Por aqui, as precondições para o surgimento de um “salvador” populista e nacionalista estão lançadas. Saberemos escapar da armadilha?

*ECONOMISTA

Mais conteúdo sobre:
Donald Trump Globalização Populismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.