O equivocado discurso da modernidade

Com as eleições chegando, uma das palavras que têm sido repetidas nos noticiários e debates sobre economia e administração é modernidade. O termo é mal empregado, pois parece que se estão referindo à era pós-moderna e que o Brasil, como um todo, já vive economicamente nessa fase. Paradoxalmente, desde que esse termo passou a ser ventilado, a economia brasileira parece que passou a andar para trás. Ou seja, fala-se muito em modernidade justamente no momento em que o País está quase parando.

SÉRGIO AMAD COSTA, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2014 | 02h03

Pós-modernidade é algo a ser alcançado, uma referência, uma espécie de clima que supera os limites impostos pelo mundo moderno. Trata-se de mudanças cujo significado para muitos ainda é nebuloso e tem pouco que ver com a realidade econômica brasileira, por ser ela tão contraditória neste Brasil de vários Brasis. É possível identificar, no conceito de pós-modernidade, algumas de suas características já consolidadas e algumas tendências tanto no lado da produção quanto no lado do consumo.

Quanto à produção, a tecnologia é desenvolvida pela utilização da informática e da robótica, com potencial de fabricação em larguíssima escala. E, no aspecto comportamental da organização do trabalho, ocorre a substituição dos sistemas taylorista e fordista por diversos modelos participativos. Em outras palavras, a Idade Moderna foi marcada pela ideia de que o sistema de incentivos deveria basear-se só em estímulos monetários. Isso fundamentado na concepção da natureza humana como, de modo precípuo, a do homo economicus. No pós-moderno, tal tese é substituída pela aceitação de outros estímulos, além do monetário, para motivar o trabalho, com vários modelos de participação e cogestão.

A realização do trabalho das empresas, na Idade Moderna, ocorria exclusivamente dentro dos muros da companhia. No pós-moderno, com o desenvolvimento da tecnologia, o trabalho nas grandes metrópoles cada vez mais vai sendo liberado para ser feito fora dos muros das firmas, em modalidade de home office. Uma tendência determinada por razões puramente econômicas, reduzindo, assim, o custo do espaço físico da empresa e o tempo e o dinheiro gastos com o transporte para ir e voltar da labuta.

No que tange ao consumo, os altares do pós-moderno são os shopping centers e os sites na internet. É ali que ocorre a substituição das lojas de rua, dos armazéns, dos mercados, das feiras, das barracas dos marreteiros, pela concentração de estabelecimentos comerciais sofisticados, alojados num espaço físico ou virtual estrategicamente definido para o consumo.

Outra característica desta nova era está no fato de que as mercadorias, além de, em grande parte, serem descartáveis, são fabricadas em larga escala. Quase tudo o que se compra é produzido em série, mas a forma de pagamento tem algo diferente. Compra-se, por exemplo, uma camisa igual a milhares de outras, mas se paga com cartão de débito ou de crédito pessoal. No ato de pagar, preserva-se a individualidade, porém, quanto ao produto, há a massificação.

Pois bem, este pós-moderno econômico é realidade em alguns países que conheceram a modernidade, como, entre outros, Alemanha, EUA e Japão. Mas tudo isso ainda tem pouco que ver com o Brasil. Tal fase em nosso país é parcialmente encontrada em alguns shopping centers, na internet e na esteira da linha de produção de um pequeno número de empresas, com tecnologia de ponta, produzindo em larga escala e que tiveram condições favoráveis para abandonar o sistema taylorista na organização do trabalho. Entretanto, a maior parte do Brasil ainda vive o "pré-moderno".

A tal da modernidade de que se ouve falar por aí é a transição para o pós-moderno e não pode ser confundida com a realidade que vivemos. Portanto, o discurso da modernidade, como evolução, é um compromisso, sim, a ser reiterado por todos os que acreditam na mudança para uma nova era, em que, infelizmente, ainda não mostramos competência para ingressar.

* É professor de recursos humanos e relações trabalhistas da FGV-SP

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