Michael Dantas/AFP
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Pedro Fernando Nery
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O ESG é esperança de um capitalismo mais sustentável, mas falta ênfase no social

Há grande foco na primeira e na última letras, com o ESG estando muito associado a boas práticas ambientais e anticorrupção. Mas e o S de social?

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2021 | 04h00

O Estadão realizou na semana passada o Summit ESG, evento sobre empresas e seus atributos ambientais, sociais e de governança (ASG, em tradução). O ESG é esperança de um capitalismo mais sustentável, à medida que mais empresas passam a querer ostentar algum selo do tipo, sinal principalmente para investidores. Contudo, há grande ênfase ainda na primeira e na última letras, com o ESG estando muito associado a boas práticas ambientais e anticorrupção. E o S de social?

Peguemos o caso de uma das maiores empresas privadas não financeiras do Brasil, a Ambev – base também de algumas fortunas brasileiras. A empresa abraçou o marketing ESG, e em publicação recente fala sobre “ressignificar”, “propósito”, “comunidades”. A XP a descreveu como uma das empresas “melhores posicionadas em ESG”. Na humilde opinião do colunista, é um case que testa os limites da moda ESG.

Sabemos que a venda de álcool se dá no Brasil sob menos restrições do que as presentes em muitos países desenvolvidos. A empresa parece cumprir suas obrigações legais, mas faz realmente algo a mais de relevante para minimizar o impacto devastador que os produtos que vende têm em nossa sociedade? Ou, ao contrário, as bem-sucedidas estratégias de logística e marketing que são marca do seu sucesso facilitam que cheguem aonde eles deveriam ser limitados?

Somos campeões mundiais em homicídios. Também nos destacamos nos acidentes de trânsito, com alguns dos piores índices de mortes por habitante fora da África. Há evidência farta de que o álcool está relacionado a essas mazelas, presente nas vítimas da violência urbana e violência no trânsito, bem como nos seus algozes.

Repasso ao leitor uma informação chocante: o 2.º dia com mais assassinatos no ano é 24 de dezembro. Perde somente para o ano-novo. As datas de maior consumo de bebida alcoólica lideram também nos suicídios. Não temos bons dados sobre violência doméstica, mas dá para imaginar. 

A empresa diz que incentiva o consumo moderado e que vende bebidas de menor teor alcoólico. Mas as vende em embalagens com 12 unidades. 

Para os EUA, já há índices ESG que excluem não apenas empresas de tabaco, armas e jogatina, mas também de álcool. Para ser ESG, uma empresa que vende bebida alcoólica para milhões deveria ser muito mais ambiciosa em reformar sua publicidade rumo a campanhas de consumo equilibrado e em restringir sua operação em áreas conflagradas e rodovias. 

Naturalmente, estamos falando de reduzir o lucro, mas ninguém falou que você pode lucrar bilhões vendendo toneladas de álcool por ano e, ao mesmo tempo, posar de ESG.

Há ainda outra questão saliente no momento atual: enquanto celebramos o SUS, pouco discutimos sobre como custear seu frágil futuro. O S de ESG é de socialização de perdas para empresas cujos lucros privados são baseados na formação de doenças crônicas que pesarão sobre o sistema. 

A OMS estima que o álcool é responsável por quase 10% dos problemas de saúde masculinos: são variados tipos de câncer, cardiopatias e doenças de fígado, pâncreas e cérebro. O sistema é onerado ainda com as caríssimas internações de vítimas do trânsito.

Mas, se for para fazer uma escala anti-ESG, ela deveria ir de zero ao aliciamento de crianças miseráveis para prostituição. Refiro-me às denúncias contra os ex-donos da Casas Bahia, que incluem alegações de relações sexuais dentro da sede da empresa e operações de pagamento em suas lojas. A devastadora matéria de Pedro Lopes e Camila Brandalise, do Universa, apresenta parte dos relatos.

A história se desenrola em diversos processos na Justiça. Ainda que faltem veredictos, o fato é que a sucessora da empresa, a Via Varejo, alega que os supostos episódios ocorreram antes de a companhia absorver a Casas Bahia. Trata como um problema de pessoas físicas.

É uma resposta frustrante, afinal a nova empresa herdou variados ativos da anterior, inclusive a marca, não havendo boa razão para qual não responda pelos passivos. Ainda que fosse juridicamente sólida, a omissão concretamente implica que a empresa pode não indenizar voluntariamente as famílias das meninas. “Os critérios ESG sempre estiveram em nosso DNA”, afirmou este ano a empresa em uma escolha de palavras particularmente infeliz.

*DOUTOR EM ECONOMIA 

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