O ESG é esperança de um capitalismo mais sustentável, mas falta ênfase no social

Há grande foco na primeira e na última letras, com o ESG estando muito associado a boas práticas ambientais e anticorrupção. Mas e o S de social?

Pedro Fernando Nery* - O Estado de S.Paulo

O Estadão realizou na semana passada o Summit ESG, evento sobre empresas e seus atributos ambientais, sociais e de governança (ASG, em tradução). O ESG é esperança de um capitalismo mais sustentável, à medida que mais empresas passam a querer ostentar algum selo do tipo, sinal principalmente para investidores. Contudo, há grande ênfase ainda na primeira e na última letras, com o ESG estando muito associado a boas práticas ambientais e anticorrupção. E o S de social?

Peguemos o caso de uma das maiores empresas privadas não financeiras do Brasil, a Ambev – base também de algumas fortunas brasileiras. A empresa abraçou o marketing ESG, e em publicação recente fala sobre “ressignificar”, “propósito”, “comunidades”. A XP a descreveu como uma das empresas “melhores posicionadas em ESG”. Na humilde opinião do colunista, é um case que testa os limites da moda ESG.

Sabemos que a venda de álcool se dá no Brasil sob menos restrições do que as presentes em muitos países desenvolvidos. A empresa parece cumprir suas obrigações legais, mas faz realmente algo a mais de relevante para minimizar o impacto devastador que os produtos que vende têm em nossa sociedade? Ou, ao contrário, as bem-sucedidas estratégias de logística e marketing que são marca do seu sucesso facilitam que cheguem aonde eles deveriam ser limitados?

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O S de ESG também é sobre custear o frágil futuro do SUS. Foto: Michael Dantas/AFP

Somos campeões mundiais em homicídios. Também nos destacamos nos acidentes de trânsito, com alguns dos piores índices de mortes por habitante fora da África. Há evidência farta de que o álcool está relacionado a essas mazelas, presente nas vítimas da violência urbana e violência no trânsito, bem como nos seus algozes.

Repasso ao leitor uma informação chocante: o 2.º dia com mais assassinatos no ano é 24 de dezembro. Perde somente para o ano-novo. As datas de maior consumo de bebida alcoólica lideram também nos suicídios. Não temos bons dados sobre violência doméstica, mas dá para imaginar. 

A empresa diz que incentiva o consumo moderado e que vende bebidas de menor teor alcoólico. Mas as vende em embalagens com 12 unidades. 

Para os EUA, já há índices ESG que excluem não apenas empresas de tabaco, armas e jogatina, mas também de álcool. Para ser ESG, uma empresa que vende bebida alcoólica para milhões deveria ser muito mais ambiciosa em reformar sua publicidade rumo a campanhas de consumo equilibrado e em restringir sua operação em áreas conflagradas e rodovias. 

Naturalmente, estamos falando de reduzir o lucro, mas ninguém falou que você pode lucrar bilhões vendendo toneladas de álcool por ano e, ao mesmo tempo, posar de ESG.

Há ainda outra questão saliente no momento atual: enquanto celebramos o SUS, pouco discutimos sobre como custear seu frágil futuro. O S de ESG é de socialização de perdas para empresas cujos lucros privados são baseados na formação de doenças crônicas que pesarão sobre o sistema. 

A OMS estima que o álcool é responsável por quase 10% dos problemas de saúde masculinos: são variados tipos de câncer, cardiopatias e doenças de fígado, pâncreas e cérebro. O sistema é onerado ainda com as caríssimas internações de vítimas do trânsito.

Mas, se for para fazer uma escala anti-ESG, ela deveria ir de zero ao aliciamento de crianças miseráveis para prostituição. Refiro-me às denúncias contra os ex-donos da Casas Bahia, que incluem alegações de relações sexuais dentro da sede da empresa e operações de pagamento em suas lojas. A devastadora matéria de Pedro Lopes e Camila Brandalise, do Universa, apresenta parte dos relatos.

A história se desenrola em diversos processos na Justiça. Ainda que faltem veredictos, o fato é que a sucessora da empresa, a Via Varejo, alega que os supostos episódios ocorreram antes de a companhia absorver a Casas Bahia. Trata como um problema de pessoas físicas.

É uma resposta frustrante, afinal a nova empresa herdou variados ativos da anterior, inclusive a marca, não havendo boa razão para qual não responda pelos passivos. Ainda que fosse juridicamente sólida, a omissão concretamente implica que a empresa pode não indenizar voluntariamente as famílias das meninas. “Os critérios ESG sempre estiveram em nosso DNA”, afirmou este ano a empresa em uma escolha de palavras particularmente infeliz.

*DOUTOR EM ECONOMIA 

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O ESG é esperança de um capitalismo mais sustentável, mas falta ênfase no social

Há grande foco na primeira e na última letras, com o ESG estando muito associado a boas práticas ambientais e anticorrupção. Mas e o S de social?

Pedro Fernando Nery* - O Estado de S.Paulo

O Estadão realizou na semana passada o Summit ESG, evento sobre empresas e seus atributos ambientais, sociais e de governança (ASG, em tradução). O ESG é esperança de um capitalismo mais sustentável, à medida que mais empresas passam a querer ostentar algum selo do tipo, sinal principalmente para investidores. Contudo, há grande ênfase ainda na primeira e na última letras, com o ESG estando muito associado a boas práticas ambientais e anticorrupção. E o S de social?

Peguemos o caso de uma das maiores empresas privadas não financeiras do Brasil, a Ambev – base também de algumas fortunas brasileiras. A empresa abraçou o marketing ESG, e em publicação recente fala sobre “ressignificar”, “propósito”, “comunidades”. A XP a descreveu como uma das empresas “melhores posicionadas em ESG”. Na humilde opinião do colunista, é um case que testa os limites da moda ESG.

Sabemos que a venda de álcool se dá no Brasil sob menos restrições do que as presentes em muitos países desenvolvidos. A empresa parece cumprir suas obrigações legais, mas faz realmente algo a mais de relevante para minimizar o impacto devastador que os produtos que vende têm em nossa sociedade? Ou, ao contrário, as bem-sucedidas estratégias de logística e marketing que são marca do seu sucesso facilitam que cheguem aonde eles deveriam ser limitados?

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O S de ESG também é sobre custear o frágil futuro do SUS. Foto: Michael Dantas/AFP

Somos campeões mundiais em homicídios. Também nos destacamos nos acidentes de trânsito, com alguns dos piores índices de mortes por habitante fora da África. Há evidência farta de que o álcool está relacionado a essas mazelas, presente nas vítimas da violência urbana e violência no trânsito, bem como nos seus algozes.

Repasso ao leitor uma informação chocante: o 2.º dia com mais assassinatos no ano é 24 de dezembro. Perde somente para o ano-novo. As datas de maior consumo de bebida alcoólica lideram também nos suicídios. Não temos bons dados sobre violência doméstica, mas dá para imaginar. 

A empresa diz que incentiva o consumo moderado e que vende bebidas de menor teor alcoólico. Mas as vende em embalagens com 12 unidades. 

Para os EUA, já há índices ESG que excluem não apenas empresas de tabaco, armas e jogatina, mas também de álcool. Para ser ESG, uma empresa que vende bebida alcoólica para milhões deveria ser muito mais ambiciosa em reformar sua publicidade rumo a campanhas de consumo equilibrado e em restringir sua operação em áreas conflagradas e rodovias. 

Naturalmente, estamos falando de reduzir o lucro, mas ninguém falou que você pode lucrar bilhões vendendo toneladas de álcool por ano e, ao mesmo tempo, posar de ESG.

Há ainda outra questão saliente no momento atual: enquanto celebramos o SUS, pouco discutimos sobre como custear seu frágil futuro. O S de ESG é de socialização de perdas para empresas cujos lucros privados são baseados na formação de doenças crônicas que pesarão sobre o sistema. 

A OMS estima que o álcool é responsável por quase 10% dos problemas de saúde masculinos: são variados tipos de câncer, cardiopatias e doenças de fígado, pâncreas e cérebro. O sistema é onerado ainda com as caríssimas internações de vítimas do trânsito.

Mas, se for para fazer uma escala anti-ESG, ela deveria ir de zero ao aliciamento de crianças miseráveis para prostituição. Refiro-me às denúncias contra os ex-donos da Casas Bahia, que incluem alegações de relações sexuais dentro da sede da empresa e operações de pagamento em suas lojas. A devastadora matéria de Pedro Lopes e Camila Brandalise, do Universa, apresenta parte dos relatos.

A história se desenrola em diversos processos na Justiça. Ainda que faltem veredictos, o fato é que a sucessora da empresa, a Via Varejo, alega que os supostos episódios ocorreram antes de a companhia absorver a Casas Bahia. Trata como um problema de pessoas físicas.

É uma resposta frustrante, afinal a nova empresa herdou variados ativos da anterior, inclusive a marca, não havendo boa razão para qual não responda pelos passivos. Ainda que fosse juridicamente sólida, a omissão concretamente implica que a empresa pode não indenizar voluntariamente as famílias das meninas. “Os critérios ESG sempre estiveram em nosso DNA”, afirmou este ano a empresa em uma escolha de palavras particularmente infeliz.

*DOUTOR EM ECONOMIA 

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