O espectro crescente do protecionismo

Há um imperativo urgente para aqueles que desejam promover uma agenda multilateral sustentável

Jean-Pierre Lehmann*, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2016 | 22h48

Estamos todos em estado de choque. Não havia nenhuma previsão, ou aviso, de que Donald Trump seria o 45º Presidente dos Estados Unidos, muito menos que sua vitória seria decisivamente esmagadora. Uau! Mesmo o choque do Brexit sai enfraquecido na comparação. A Grã-Bretanha é um ator menor na geopolítica global. Estamos falando dos Estados Unidos da América, a maior potência mundial de longe, dominante no cenário global, apesar de enfrentar o crescente poder da China. Esta vitória terá claramente uma infinidade de consequências, intencionais ou não! Nós deveríamos ter nos sintonizados mais, como meu amigo Nik Gowing instou em seu artigo, para pensar o impensável.

A vitória de Trump estava fora de nossos radares. Todas as pesquisas indicavam a vitória de Hillary Clinton. Esse resultado teve e terá um grande impacto, que ainda assim, torna-se lógico e claro com o benefício da retrospectiva.

A principal certeza que podemos ter em termos de consequências da vitória de Trump é que o protecionismo irá aumentar nos EUA - o que não seria uma mudança de curso, mas sim a intensificação de uma tendência existente. Além disso, aumentará retaliação em todos os lugares. A ameaça de uma guerra comercial aberta entre a China e os EUA, presente há algum tempo no horizonte, está agora se aproximando.

Enquanto Trump é um protecionista declarado, os responsáveis pela política comercial nos dois governos antecessores, George Bush e Barack Obama, foram protecionistas de armários. O principal obstáculo na busca por uma agenda de comércio multilateral com regras abertas surgiu devido à incapacidade dos players dominantes – EUA, Europa e Japão – de se adaptarem ao surgimento de novos atores, especialmente a China, mas também de outras chamadas “economias emergentes”.

A mais recente e flagrante manifestação desse fracasso refere-se aos “mega tratados regionais”, notadamente o Acordo de Associação do Pacífico (TPP) e a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP); ambos discriminam, de forma descarada, os novos atores globais, especialmente a China, mas também Índia, Brasil, África do Sul e todos os países menos desenvolvidos. Tais acordos também são claramente politizados, usando o comércio como uma arma para fins geopolíticos, como admitiu vergonhosamente a Secretária de Defesa de Obama, Ash Carter, ao dizer: “TPP é como ter um porta-aviões extra”.

A boa notícia é que, com a vitória de Trump, é certo que esses tratados serão enterrados. A má notícia é que não há um quadro de comércio multilateral sólido.

Há um imperativo urgente para aqueles que desejam promover uma agenda multilateral sustentável, inclusiva, baseada em regras globais para reunir forças. A situação é altamente crítica e, como as coisas estão atualmente, poderia ficar muito pior. O espectro do protecionismo e das guerras comerciais globais é aterrorizante.

*Professor emérito de Economia e Política Internacional no IMD

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