O excesso e as consequências
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O excesso e as consequências

Em 2021, a economia brasileira enfrentou as consequências das más escolhas feitas e de omissões

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2021 | 18h00

No século 4º antes de Cristo, os sete sábios da Grécia Antiga foram convocados ao santuário de Delfos para escolher as duas frases que sintetizassem o pensamento helênico e fossem inscritas nos frontispícios do templo de Apolo. E foram elas: “conheça-te a ti mesmo” (gnote se autón) e “nada em excesso” (medén agán).

Um princípio depende do outro, porque para saber onde começa a hybris, ou seja, onde começa o excesso, é preciso primeiro conhecer a natureza de si mesmo. Quem passa dos limites enfrenta inevitavelmente as consequências. Quem come demais, enfrenta a obesidade, assim como quem come de menos, outro excesso, acaba sendo vítima da anorexia. Quem demora demais para agir chega atrasado – ou não chega.

São verdades que valem não apenas para cada pessoa, mas, também, para as sociedades. A decadência de Atenas começou quando a soberba tomou conta da cidade, alimentou a ambição de conquistar o mundo em volta dela e induziu as elites a dar passos maiores que suas pernas. Os impérios desabam quando conquistam mais do que podem administrar.

Em economia, muito frequentemente acontece a mesma coisa: se o governo gastou demais, em seguida vem o castigo, em inflação, em alastramento da dívida e em distorções.

Em 2021, a economia brasileira enfrentou as consequências das más escolhas feitas, as consequências da hybris desrespeitada. E as principais foram a omissão do governo federal no contra-ataque à pandemia e, depois, o mergulho na política populista para assegurar apoio ao projeto de reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Por conta disso, vieram o furo no teto dos gastos, a paralisação das reformas, as concessões atrás de concessões às corporações e aos políticos fisiológicos. O maior custo foram a perda de confiança e o encadeamento das incertezas. O desemprego atingiu 12,906 milhões de pessoas desempregadas no trimestre encerrado em outubro e a inflação chegou aos dois dígitos. Seguiu-se a paralisia dos investimentos.

Mas o desgoverno ou as consequências de excessos ou de omissões não se restringem à atuação deste governo. Outras vêm de longe e se perpetuam. O caso da indústria é uma delas. Excessivamente protegida, atacada pelo chamado custo Brasil ou destituída de mercado externo pela falta de acordos comerciais, a indústria de transformação definha (veja o gráfico).

 

Não se sabe como vai enfrentar a nova onda tecnológica, a etapa 4.0, a impressão em três dimensões, a robótica avançada, a internet das coisas e o que virá junto...

A moral judaico-cristã deu importância à culpa que, supostamente, quase sempre tem perdão. Mas o que conta mesmo não é a culpa; são as consequências. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.