O fantasma de 1937

Prever o que vai acontecer, no futuro próximo, com a taxa de câmbio é sempre uma das maiores dificuldades para os formuladores de políticas econômicas. Esse exercício, no momento atual, se tornou particularmente complicado, dadas as incertezas que envolvem muitas das variáveis que entram na formação das cotações do dólar. Antecipar os movimentos do câmbio, contudo, não deixa de ser crucial, sobretudo na definição da política monetária pelo Banco Central.

José Paulo Kupfer, O Estado de S. Paulo

12 Maio 2015 | 03h00

Um dos maiores dilemas, nesse campo, diz respeito a um elemento tão essencial quanto fora do controle do BC. Trata-se da decisão de seu congênere americano, o Federal Reserve, em relação ao momento de dar início à retomada de alta nas taxas de juros dos títulos federais. Só a ameaça de que a data da mudança de rumo estivesse próxima produziu, nos últimos 12 meses, pelo menos duas chacoalhadas fortes no mercado financeiro global.

Embora a retomada do crescimento nas economias maduras, sete anos depois da eclosão da crise de 2008, ainda continue claudicante, a liquidez financeira superou a contração inicial provocada pelo estouro de uma bolha de ativos e voltou a crescer. Não é difícil antever o que acontecerá com os capitais hoje aplicados em economias emergentes quando a guinada na política monetária americana acontecer. Com novas perspectivas de ganhos, eles voarão em nuvem para a qualidade e a segurança dos títulos em dólar.

Essa retomada da liquidez se deveu primeiro ao longo programa de injeção maciça de dinheiro no mercado americano pelo Fed, como forma de animar a economia e, mais recentemente, pela repetição dessa política tanto na Europa do euro quanto no cronicamente combalido Japão. A abundância de dinheiro não relançou as economias, mas ajudou a evitar retrações mais fortes no nível de atividade e em parte transbordou para outros mercados, em razão dos juros próximos de zero praticados nas economias em que o “afrouxamento monetário” foi adotado.

O problema é que a data da virada, que já pareceu mais nítida no horizonte, voltou a ingressar numa zona de névoa. Se o desemprego, nos Estados Unidos, recuou para a “meta”, a inflação teima em se manter abaixo do programado e o crescimento se mantém numa gangorra. Apesar de toda a liquidez injetada, repete-se, de certo modo, o “paradoxo da parcimônia”, descrito por Keynes nos idos da Grande Depressão. Numa tradução livre e simplificada, o que ocorre quando uma economia está em baixa é que, quanto mais as pessoas deixam de gastar e resolvem poupar, temerosos do que lhes reserva o futuro, mais a economia se deprime.

Nem fartura de recursos nem juros reais negativos, contudo, têm dado segurança de que o relançamento da economia está batendo na porta. De junho deste ano para setembro e agora sem data previsível, o início das altas dos juros nos EUA voltou a ser uma incógnita. Os fantasmas de 1937 parecem ter se transformado em fator relevante para explicar a atual hesitação dos dirigentes do Fed. Iludido por sinais de recuperação econômica e aumento da inflação, depois de anos de estímulos, o governo Roosevelt promoveu um aperto fiscal e monetário que recolocou a economia americana em terreno recessivo, obrigando a um recuo nos anos seguintes.

Economistas consultados pelo próprio Fed, em fins do ano passado, projetaram em 20% as chances de que se repita, dentro de até dois anos, o “desastre de 1937”, caso altas nas taxas de juros sejam retomadas em 2015. É um porcentual alto o suficiente para reforçar o abacaxi que os bancos centrais de economias emergentes têm de descascar com suas políticas de juros. Quanto mais demorarem para pôr a taxa de câmbio no lugar adequado e evitar ampliação de déficits externos, mais riscos correrão de encomendar crises cambiais, se a retomada dos juros nos Estados Unidos for adiada. Em tempo: qualquer semelhança com a política brasileira de juros e câmbio não é mera coincidência.

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