O fantasma do desemprego

A redução do desemprego de 5,3% em outubro para 4,9% em novembro é um fato de extrema importância porque afasta o efeito mais danoso e grave da desaceleração de qualquer economia: a destruição de emprego que leva ao empobrecimento e é sempre de difícil e lenta reversão. O Brasil está livre dele, no momento, ao contrário do que acontece lá fora, onde o desemprego médio nas principais economias é de 7%, com pique de 11,7% na zona do euro, à beira da recessão, e 7,7% nos Estados Unidos.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2012 | 02h06

Enquanto isso, vivemos num clima de pleno emprego. Só em novembro foram criadas 1.770 vagas, grande parte com carteira; é 23,6% menos que igual mês do ano passado, mas ainda mostrando sinais de vigor que vêm se confirmado. Os assalariados não só estão encontrando novos postos, mas ganhando mais. A renda real bateu recorde em novembro, R$ 1.809, sem contar o 13.º salário e as gratificações, 0,8% sobre outubro e 5,3% sobre igual mês de 2011.

Enigma. Há poucas explicações para esse resultado aparentemente contraditório. Affonso Celso Pastores disse certa vez que é um enigma. Para muitos analistas e a coluna há algumas razões plausíveis, que não justificam essa situação.

Os analistas levantam algumas hipóteses para explicar esse resultado, todas incompletas. A mais evidente seria de que, para a empresa, é mais oneroso despedir e ter dificuldade para recontratar empregados já treinados. Melhor seria mantê-los, mesmo produzindo menos.

Outro argumento, polêmico, é que o custo da mão de obra, apesar dos aumentos salariais, não seria definitivo e poderia ser absorvido com as novas desonerações na folha de pagamento. Outra hipótese é que grande parte das empresas terceirizou sua produção e até a administração, repassando às terceirizadas o peso do desemprego.

Essa tese é reforçada por um fato excepcional no mercado de trabalho. De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), só no primeiro semestre 1 milhão de empresas, mais da metade na área de serviço, seguida de comércio e, bem mais distante, indústria. se terceirizaram e pressionam menos o nível de desemprego medido pelo IBGE.

Mas o fator mais significativo é a concentração significativa de queda de desemprego na construção (aqui pesa também o Minha Casa Minha Vida), de 6,4%, comércio e serviços prestados a empresas e outros tipos. São todos setores diretamente ou indiretamente ligados ao aumento do consumo interno, que mantêm crescimento vigoroso em média de 7% a 8%, com destaque para as vendas ao varejo e para o crédito. É um fato que fica evidente nos dados do IBGE: o menor desemprego é influenciado pelo consumo interno.

Vitória do governo? Sem dúvida alguma. Em meio à desaceleração que ganhou força, à frustração com as medidas isoladas de estímulo ao crescimento via demanda adotadas pelo governo e a um PIB que pode ser menos de 1% este ano, o governo Dilma soube manter e fortalecer a política de transferência de renda, aumentar os valores do bolsa família - sem contar outros programas que trouxeram milhares de pessoas para o mercado. Seu mérito foi acreditar na política do governo anterior, que, numa economia pressionada pela crise, fortaleceu a demanda interna, que vem crescendo em média 8% desde meados do governo Lula.

Onde errou. Para os analistas do mercado, a impressão é de que, satisfeito com os resultados do crescimento do consumo e da demanda interna, o governo não dedicou igual empenho à produção. Já as indústrias se contentaram em manter o que vinham produzindo mesmo porque dispunham de capacidade ociosa nas fábricas e podiam importar a custos menores por causa do câmbio. Em uma frase, parece que, neste ano, indústria e governo se acomodaram, com muitos usando o argumento pouco consistente de que a "situação externa"exigia cautela. O consumo interno pode se manter vigoroso, mas o resultado deste ano confirma que ele não pode contribuir mais para o crescimento do que já fez até agora.

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