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Celso Ming
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O fator político

A economia está carregada de incertezas. Mas, de longe, a principal é de natureza política: Além da equipe econômica, não há no governo quem se empenhe na defesa do ajuste. Nem a presidente Dilma.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2015 | 02h04

Não é que as incertezas econômicas sejam irrelevantes. Ao contrário, são até mais graves do que as que o governo vem admitindo e, isoladamente, têm enorme potencial de impacto sobre os resultados.

Entre elas estão a ameaça de racionamento de energia elétrica e de água tratada, fatores que, por si sós, podem derrubar o PIB em alguma coisa entre 1,5% e 2,0%, adiar investimentos e desorganizar a vida econômica.

O risco de rebaixamento dos títulos do Brasil para o grau de especulação não produziria apenas aumento de custos do financiamento externo. Se ele acontecesse, o nível de confiança, hoje abalado, cairia ainda mais e concorreria para prostrar o País.

Há a inflação, que aumenta seu galope à medida que o governo se vê obrigado a aplicar os até agora sistematicamente negados tarifaços para realinhar preços antes represados. As contas externas continuam em deterioração, fator que, por sua vez, vem puxando as cotações do dólar para as cercanias dos R$ 3, encarecendo produtos, capitais e serviços importados. A indústria, cada vez mais desidratada, vai perdendo os lenitivos fiscais de que dispunha nos três últimos anos... E por aí vai. Não faltam indicadores ruins.

Do ponto de vista meramente técnico, as soluções estão à mão. É só aplicar o que está nos manuais. A questão é que a economia pressupõe a política e aí se concentram os problemas, porque a tarefa mais relevante consiste em distribuir pela população infindáveis contas a pagar.

A presidente Dilma assumiu seu segundo mandato a 1.º de janeiro sem direito à trégua de praxe dos cem primeiros dias. Mostrou-se incapaz de coordenar sua base de apoio político e vai levando uma lambada atrás da outra no Congresso. Hostis a seu governo, os políticos começaram a sabotar o programa de ajuste fiscal. Na semana passada, a Câmara dos Deputados impôs o tal Orçamento Impositivo, pelo qual distribui verbas entre os parlamentares. A Medida Provisória 665, que reexamina as condições do abono salarial e do seguro-desemprego, recebeu 233 emendas, e a 664, que impõe restrições ao regime de pensões, tem outras 508. A volta à austeridade e à formação de superávits primários não conta com a colaboração do Congresso.

A aprovação popular ao governo despenca nas pesquisas de avaliação. Até mesmo dentro do seu partido, o PT, e no âmbito das suas bases sindicais, a presidente Dilma vai sendo duramente acusada de práticas de estelionato eleitoral - na medida em que prometeu uma coisa na campanha e vai entregando outra.

A crise da Petrobrás, as escolhas polêmicas que fez na recomposição da diretoria da empresa e os desdobramentos da Operação Lava Jato sobre sua base política semeiam dúvidas sobre a capacidade da presidente de manter a atual orientação da política econômica.

A presidente parece isolada e, sobretudo, confusa. Esta não é a política econômica dos seus sonhos, mas não tem opção melhor à mão. Em vez de defendê-la com todas as forças e exigir o mesmo de todo o governo, Dilma vacila e com isso deixa de passar firmeza à sua equipe. Desamparada e sem liderança, a sociedade se ressente e se manifesta como pode.

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