Juros

E-Investidor: Esperado, novo corte da Selic deve acelerar troca da renda fixa por variável

O Fed age

Ontem o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) surpreendeu porque aumentou a intervenção no mercado de crédito para tentar reverter a crise.Como se esperava, os juros básicos (entre 0% e 0,25% ao ano) permaneceram no mesmo nível. O Fed avisou que vão ficar aí "por um período prolongado".A novidade está em que o Fed vai comprar nada menos que US$ 300 bilhões em títulos do Tesouro americano (treasuries) não mais de curto prazo, mas de longo prazo, como parte do seu arsenal destinado ao refinanciamento de imóveis (hipotecas) e à retomada da atividade econômica.O comunicado divulgado ontem à tarde dava conta de que o Fed compraria até US$ 750 bilhões em ativos lastreados em hipotecas, o que aumentará o total dessas aplicações para US$ 1,25 trilhão.A decisão do Fed tem várias e importantes implicações. Em primeiro lugar, cria uma demanda adicional para os treasuries de prazo longo. Como ainda ontem informava a Bloomberg, os títulos sofreram uma retração de procura de 3,4% desde dezembro passado. Foi aparentemente com base nessa sensível perda de interesse que, na última sexta-feira, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, externou suas preocupações sobre a capacidade futura do Tesouro americano rolar (e honrar) sua dívida. Domingo, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, já havia dado uma resposta contundente ao premiê chinês. Avisou que "cada investidor, e não apenas o governo chinês, pode ter absoluta confiança na saúde dos seus investimentos nos Estados Unidos". E ontem a resposta deixou a retórica e foi para o campo prático. O próprio Fed, encarregado das emissões de dólares, mostrou que garante mercado para os treasuries.Em segundo lugar, atuou para nivelar os juros de longo prazo (que tinham ficado desproporcionalmente mais altos) aos de curto prazo, de maneira a não provocar distorções. A reação do mercado financeiro foi instantânea. A procura pelos títulos do Tesouro de longo prazo aumentou. Isso obrigou o investidor a aumentar o volume de dólares para comprar o mesmo título, o que, por sua vez, derrubou mais a remuneração (yield) paga por ele. Movimento correspondente foi o de alta do ouro e das bolsas e de forte desvalorização do dólar perante o euro e o iene japonês, na medida em que haverá maior emissão de dólares.Outra leitura para o que aconteceu é a de que, na economia real, as coisas podem ter piorado a ponto de não deixar outra saída ao Fed senão a de tomar decisões mais radicais.É claro que esse forte desempenho de uma função com características fiscais pelo maior banco central do mundo está acontecendo em caráter excepcional. Trata-se de enfrentar a maior crise desde a Grande Depressão dos anos 30. A longo prazo, tem de haver um limite para isso. E, um dia, o Fed terá de voltar a puxar pelos juros básicos, ou seja, terá de acionar a política monetária para retirar dólares do mercado e impedir os efeitos inflacionários do despejo de moeda.No momento, não há impacto inflacionário. A direção do Fed não está preocupada com isso. Veja, ainda, o Entenda. ConfiraSem febre - Apesar dos trilhões de dólares injetados na economia americana e de sabe-se lá quantos euros injetados na Europa, não se esperam pressões inflacionárias.Há duas explicações para isso. A primeira é a de que o consumo se mantém contido em consequência do aumento do desemprego e da perda de renda. A segunda é a de que o crédito continua emperrado e não deixa o dinheiro circular como circulava antes.Um dia, sabe-se lá quando, isso vai mudar, o crédito voltará a funcionar e os bancos centrais terão de sugar o excesso de dinheiro do mercado.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.