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José Roberto Mendonça de Barros
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O Fed amarelou?

Banco central americano surpreendeu a muitos ao anunciar que a taxa de juro não mais subiria por um tempo indefinido

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2019 | 05h00

Na última reunião de 2018, o banco central americano elevou a taxa de juro pela quarta vez no ano, em 0,25 ponto, ao mesmo tempo que deixou telegrafado que teríamos mais duas altas neste novo ano. Daí a surpresa com o ocorrido na reunião de 30 de janeiro, quando o Federal Reserve surpreendeu a muitos ao anunciar que a taxa de juro não mais subiria por um tempo indefinido, numa brusca mudança de trajetória. Simultaneamente, em outra ocasião, também se colocou que eventualmente seria suspensa a diminuição do tamanho do balanço do banco central, despressionando a liquidez do mercado.

As razões alegadas eram que correntes cruzadas (“cross currents”) tinham emergido recentemente, como o crescimento menor na China e na Europa, tensões comerciais, o risco de a Inglaterra sair da Comunidade Europeia sem nenhum acordo e uma paralisia de parte do governo federal. As condições financeiras também haviam piorado.

A primeira razão para surpresa é que nenhum dos itens listados, com exceção da paralisia parcial do governo americano, eram novos, sendo sobejamente conhecidas já em dezembro.

Adicionalmente, dois dias depois do anúncio, os dados do mercado de trabalho mostraram um vigor surpreendente, tendo sido criados 304 mil empregos novos, número muito superior ao esperado, mesmo considerando as revisões dos dados de novembro e dezembro. Na mesma data, a produção industrial também mostrou grande força.

Em resumo, não é evidente que tenha havido uma súbita desaceleração da economia.

A questão mais substantiva, entretanto, vem de dois tipos de reclamação quanto à política monetária. De um lado, as fortes quedas nas Bolsas no fim do ano detonaram muitas queixas por parte do mercado, como sempre ocorre quando se perde dinheiro.

O pior, entretanto, é que, ao longo do mês de dezembro, o presidente Donald Trump, com sua proverbial educação e delicadeza, passou a atacar com ferocidade a política do Fed, pedindo explicitamente o final das elevações da taxa de juro. É, portanto, muito natural que inúmeros analistas tenham manifestado desconforto em relação à decisão do banco central.

Partilho desse desconforto, porque minha preocupação é com a capacidade de Trump de minar sistematicamente a governança e o funcionamento das instituições americanas, onde a independência, de fato, do banco central joga um papel relevante.

O convite, neste momento, para o dr. Powell jantar na Casa Branca após a decisão dos juros não teve nada de inocente.

* * * * *

O mercado de automóveis vive um momento difícil. Após atingir um pico em 2018, a demanda deve começar a encolher em virtude da desaceleração da economia global. Na verdade, além da queda cíclica, existem várias razões estruturais para olhar o futuro com preocupação.

As novas gerações dos países de média e alta renda não têm tanto interesse na posse de um veículo como ocorreu por décadas no passado. Os mais jovens gastam dinheiro em telefones e outros equipamentos. Além disso, muita gente dá hoje a preferência ao uso da bicicleta e outros veículos de duas rodas. Finalmente, há uma grande aceitação pela utilização de serviços de compartilhamento de veículos, mercado aberto no mundo inteiro pelo Uber.

Além disso, a questão ambiental já começa a pesar no setor. Fortes restrições às emissões de poluentes estão empurrando a demanda para os carros elétricos. Neste ano, os volumes vendidos desses veículos vão crescer bastante, inclusive pelo uso de carros pequenos nos serviços de compartilhamento.

Nos EUA a predileção pelas grandes peruas (SUVs) e picapes radicalizou, de sorte que a demanda por sedãs vem diminuindo fortemente. A Chrysler, que já não produz esse tipo de veículos há mais de cinco anos, é a empresa que tem melhores resultados entre as grandes. Isso levou a GM a anunciar o fechamento de cinco fábricas e a redução no seu quadro funcional, remanejando o portfólio de produtos.

Esse é o pano de fundo do aperto que a matriz deu na GM brasileira para melhorar seus resultados. Nessa direção, a empresa está buscando um tratamento preferencial do governo estadual paulista, visando a liberação de créditos acumulados de ICMS.

Pergunta-se: algum dia vai terminar a constante busca por favores fiscais por parte do setor automotivo?

* ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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