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O Fed de Yellen

A escolha óbvia de Barack Obama para suceder Ben Bernanke na presidência do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) era Janet Yellen. Mas uma escolha óbvia não se torna menos acertada.

Barry Eichengreen, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h11

Janet Yellen é uma estrategista experimentada, dotada de credenciais acadêmicas impressionantes. Ela assistiu Ben Bernanke em sucessivos afrouxamentos quantitativos, como são chamados e, mais recentemente, durante as conversações sobre a contenção do programa de compras de títulos do governo. Sua nomeação promete a continuidade. Não há razão para se preocupar com a crescente incerteza que cerca a estratégia e as táticas do Fed durante a paralisação forçada da máquina do governo.

Isso significa também que a transição de Bernanke para Yellen terá poucas implicações para os mercados emergentes. Muito se comenta a respeito da possibilidade de Yellen ser menos agressiva do que Bernanke, e de esperar mais algum tempo para começar a reduzir as compras de ativos do Fed. Ledo engano. É preciso olhar com muito cuidado para descobrir uma, ainda que mínima, divergência entre os pontos de vista de Bernanke e de Yellen a respeito da inflação. Yellen entende que um Federal Reserve que deixa de atingir uma meta inflacionária perderá rapidamente a credibilidade necessária para cumprir outras metas, por mais importantes que elas sejam do ponto de vista social. As prioridades do Fed não mudarão. Se antes o Brasil corria algum risco por causa da contenção, hoje o risco continua exatamente o mesmo.

Yellen também foi a figura principal do Conselho de Direção do Federal Reserve encarregada da elaboração da estratégia de comunicação do banco central com os mercados. É preciso admitir que essa estratégia está progredindo. Vimos isso em meados do ano, quando os mercados reagiram de maneira exorbitante às observações de Bernanke sobre a redução do programa de compras dos títulos. Inicialmente, os investidores concluíram que seria iminente um aperto monetário. Depois, surpreenderam-se quando, em setembro, o Fed não optou pelo aperto - porque uma política que sempre dependeu de dados econômicos mostrou que dependia dos dados disponíveis. Não só os mercados não previram o que o Fed pretendia fazer, como sequer compreenderam suas estratégias e prioridades.

Alguns observadores concluíram dessa experiência infeliz que o erro do Fed é sua excessiva transparência. O banco fornece aos mercados mais informações do que eles conseguem digerir. Ele define como falsa precisão prever de que maneira esses dados poderão afetar sua tomada de decisão, uma vez que ninguém sabe como a instituição reagirá até que os dados estejam disponíveis e, mais do que isso, até que sejam discutidos.

Yellen discorda dessa conclusão. Seus discursos dizem claramente que a solução não está em o Fed fornecer menos informações, mas em procurar uma maior clareza quando os transmite. Essa conclusão é coerente com a pesquisa acadêmica. Em outras palavras, é coerente com a minha pesquisa.

Os bancos centrais, como o Fed, não atingiram ainda o ponto em que uma transparência maior tem consequências negativas - quando ela cria maior volatilidade do mercado, e não menos. O Fed de Yellen dificilmente se afastará da orientação de continuar e de estabelecer limites para o afrouxamento quantitativo. Mas aprimorará a maneira de comunicar a mensagem. Yellen não tentará pressionar os mercados. Não procurará esconder as discrepância entre os membros da Comissão Federal do Mercado Aberto (FOMC na sigla em inglês).

A verdadeira batalha se dará no que diz respeito à competência do banco central. Há uma grande nostalgia, dentro e fora do Fed, por épocas menos complicadas em que os bancos centrais não adotavam políticas não convencionais, não se preocupavam com a estabilidade financeira, e se concentravam em suas metas inflacionárias. Hoje, os membros não eleitos do FOMC tratam fundamentalmente de todo tipo de medidas fiscais, financeiras e distributivas. Penetrando nestas áreas que não lhe são próprias, o Fed tornou-se seu próprio alvo. Ele é acusado de extrapolar o seu mandato.

Os membros do Conselho de Governadores e de presidentes do banco central estão ansiosos por abandonar esses objetivos adicionais para "retomarem suas funções rotineiras" - como voltar a concentrar-se na inflação - a fim de impedir que a independência do banco central seja ameaçada.

Evidentemente, pode-se indagar se essa época mais descomplicada alguma vez existiu. Na realidade, os bancos centrais sempre se preocuparam com muitos outros problemas do que apenas a inflação. No entanto, essa nostalgia por épocas mais simples é generalizada. Em poucas palavras, é por isso que o Fed já iniciou as conversações sobre a contenção neste verão, prematuramente, na minha opinião, considerando que a taxa de desemprego ainda estava acima dos 7%.

Yellen, por outro lado, tem uma definição relativamente ampla da competência do banco central. Foi o que ela disse em seu discurso de aceitação do cargo, na quarta-feira, referindo-se à responsabilidade do Fed em trabalhar por uma inflação baixa, por um crescimento elevado e pela estabilidade financeira. Ela entende que, quando outros estrategistas estão fazendo o máximo para prejudicar as perspectivas de crescimento econômico - como ocorre atualmente com a política fiscal americana, com o fechamento do governo e o risco de atingir o teto do endividamento -, o banco central precisa esforçar-se para apoiá-lo.

Segundo ela, uma crise econômica não é o momento de fazer uma defesa intransigente dos próprios princípios.

Alguns membros do Congresso deixaram claro que preferem tirar a economia da beira do abismo a sacrificar seus estimados princípios sobre a redução da ingerência do governo e revogar o Obamacare.

Por outro lado, Yellen é pragmática. Agora, ela procurará fornecer o apoio necessário para respaldar a recuperação, e depois tratará das consequências, tanto no que concerne o tamanho do balanço do Fed, da dificuldade de contenção, quanto alguma outra questão.

Trata-se de duas visões muito diferentes da formulação da política econômica. E, certamente, se tornarão o tema das audiências de confirmação da dra. Yellen. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

PROFESSOR DE ECONOMIA E CIÊNCIAS POLÍTICAS NA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY, ESCREVE COM EXCLUSIVIDADE PARA O 'ESTADO' A CADA TRÊS MESES.

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