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O Fed e o enxugamento

Agora há indicações mais seguras de que a alta dos juros básicos dos Estados Unidos vem aí

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2016 | 21h00

Aumentam as evidências de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) retomará, afinal, o processo de elevação dos juros básicos (Fed funds). Isso pode parecer o deslocamento produzido pelo bater de asas de um pássaro. Mas produz no mercado financeiro uma tensão de espera de um vendaval.

Depois de derrubar os juros a quase zero por cento ao ano, o Fed ensaiou a retomada em dezembro de 2015, quando os puxou em 0,25 ponto porcentual. Mas não seguiu com esse movimento depois que os indicadores vitais da economia dos Estados Unidos voltaram a mostrar alguma fraqueza.

Agora há indicações mais seguras de que a alta vem aí. A primeira delas foi o conteúdo da Ata do Fed, divulgada dia 18, que deixou clara a disposição de retomar o processo. E, a reboque, nas últimas semanas, pipocaram declarações orquestradas dos governadores do Fed, também na mesma direção.

Tudo começou logo depois da eclosão da crise de 2008, quando o Fed decidiu despejar recursos “de helicóptero” para reverter a brutal paralisação da atividade econômica. Passou a recomprar títulos públicos e privados que estavam encalhados, operação que provocou emissão de US$ 3,5 trilhões.

Grande número de especialistas advertiu que essa montanha de moeda acabaria por produzir inflação, o que não aconteceu. A evolução dos preços segue abaixo de 1,5% ao ano. Em compensação, o desemprego caiu para 5% e tende a encarecer o custo da mão de obra.

O enxugamento de dólares será acionado por meio da revenda de títulos. O resultado imediato será a redução de moeda americana em circulação, na medida em que os compradores de títulos entregarem dólares para o Fed. O impacto mais importante não é a alta imediata do custo do dinheiro, mas a perspectiva de que o processo se estenderá por um bom tempo. O dólar tenderá a valorizar-se não só em relação às outras moedas, mas também em relação a outros ativos, principalmente commodities, o que implicará redução do seu preço em dólares, e assim em nova contenção da inflação.

Isso acontece num momento em que as cotações do petróleo estão em recuperação, tendo atingido os US$ 50 por barril na última quinta, e em que, no resto do mundo rico, prevalecem juros ou muito próximos do zero ou negativos.

Uma das consequências é a derrubada do rendimento dos fundos de renda fixa, dos fundos de pensão e de outros instrumentos financeiros de aposentadoria complementar, fato que obriga os aplicadores a redobrar sua poupança para garantir sustento futuro. O que, por sua vez, contribui para reduzir mais o consumo imediato e manter a recessão.

Do ponto de vista do Brasil, o principal efeito da retomada da alta dos juros nos Estados Unidos, além do encarecimento dos empréstimos externos, é algum desvio de recursos que viriam para cá, na medida em que os investidores passariam a ter rentabilidade mais alta em aplicações em dólares. Há quem entenda que isso prejudicará ainda mais a economia brasileira, especialmente as exportações. Mas não há por que temer por solavancos só por conta disso. O processo tenderá a ser lento e gradual.

CONFIRA:

O estoque da Dívida Pública Federal teve em abril uma queda de 3,0% em relação a março. Ao contrário do que possa parecer, esse recuo não tem a ver com melhora das contas públicas. É apenas consequência do fluxo de caixa, na medida em que em abril se acumulou um resgate líquido de R$ 161,3 bilhões.

Dívida bruta

O forte aumento do déficit do governo central para R$ 170,5 bilhões em 2016, como ratificado pelo Congresso na semana que passou, deve aumentar o endividamento bruto do setor público, hoje nos 67,3% do PIB.

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