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O Fed enxuga

O banco central dos EUA deixou claro que o desempenho da economia americana é melhor do que o esperado e que o mercado de trabalho começou a ficar mais esquentado do que deveria

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2016 | 21h00

O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), presidido por Janet Yellen, retomou nesta quarta-feira o já esperado processo de enxugamento monetário, destinado a produzir forte impacto na economia mundial, com o Brasil nesse barco.

Tudo começa em 2008, com a eclosão da grande crise, quando os grandes bancos centrais foram chamados a entubar o mercado moribundo com injeções cavalares de soro e oxigênio a fim de garantir a respiração do doente. Apenas o Fed despejou nada menos que US$ 4,48 trilhões por meio de compra de títulos antes encalhados.

A reversão dessa operação é feita por meio da revenda de títulos em proporção tal que o recolhimento de moeda (o mesmo que acontece com o pagamento de títulos) aumente a cada vez os juros em 0,25 ponto porcentual ao ano.

O resultado imediato é, por efeito da lei da oferta e da procura, a desvalorização dos títulos, na mesma proporção em que o dólar se valoriza em relação aos demais ativos.

Como é de grande importância para a projeção dos valores dos ativos conhecer o ritmo em que esse processo deve acontecer, em setembro o Fed já telegrafara que preparava, além do aumento deste dezembro, mais dois aumentos dos juros de 0,25 ponto porcentual ao longo de 2017. Mas na quarta-feira a mensagem mudou alguma coisa. O Fed deixou claro que o desempenho da economia americana é melhor do que o esperado e que o mercado de trabalho começou a ficar mais esquentado do que deveria. Daí a insinuação de que o ritmo do desmonte das posições anteriores será algo mais intenso.

Por trás dessa afirmação do Fed, esconde-se o que não ficou dito: que o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve colocar em marcha alentado programa de investimentos destinado à ampliação da infraestrutura, cujo principal efeito será o aumento das despesas do Tesouro. Ou seja, a maior retirada de dólares pelo Fed deverá compensar o maior despejo da área fiscal pelo governo Trump. 

Esse pedaço do reforço anunciado quarta-feira não estava embutido nos preços dos ativos. Daí a esticada do dólar que se seguiu ao anúncio do Fed: o mesmo volume de dólares passou a comprar mais ativos, como ações, títulos, imóveis e commodities.

Como isso mexe com a economia do Brasil? O primeiro efeito foi o que já se viu, certa alta da moeda estrangeira em reais e recuo das cotações das ações. Essa desvalorização do real pode ter certo efeito inflacionário, na medida em que encareceu os produtos importados. Mas, em princípio, esse aumento de preços por aqui não deve comprometer nem a convergência da inflação para a meta nem a política de baixa dos juros a ser promovida pelo Banco Central do Brasil.

Outro possível efeito é a redução do volume de dólares que normalmente desembarcariam no País. Mesmo que ainda sobrem montanhas de dólares nos mercados, a percepção dos investidores internacionais é de relativa rarefação de recursos, o que tenderá a diminuir seu fluxo para o Brasil.

O melhor que a política poderá fazer é reforçar o processo de fortalecimento dos fundamentos da economia, o que implica austeridade na administração das contas públicas, reformas e crescimento econômico.

CONFIRA:

Em busca do fundo do poço

A notícia não é boa, mas outros medidores sugerem melhora futura. É a nova queda do IBC-Br, o indicador do Banco Central que tenta antecipar o desempenho do PIB. Em outubro, a queda da produção passou a ser de 0,48%, bem maior do que a do mês anterior, que ficou em 0,08%. O recuo no período de 12 meses terminado em outubro é de 5,29%, um baque e tanto. Como as vendas de veículos começaram a melhorar em novembro, é de esperar que a indústria – e outros setores junto com ela – possa mostrar recuperação neste fim de ano.

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