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O Fed vai agir

Do ponto de vista dos países emergentes, como é o caso do Brasil, a alta dos juros nos EUA tende a ser outra encrenca

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2015 | 21h00

Enfim, começa nesta quarta-feira o processo de reversão da política monetária dos Estados Unidos. Mas pode não ser tão dolorosa como tanta gente imaginou há meses.

Para entender o que será essa reversão, é preciso recapitular o que aconteceu. Quando a crise global estourou em 2008, a economia parou, o crédito secou, o mercado de títulos ficou estancado, ninguém comprava, ninguém conseguia vender ativos. 

Foi então que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) iniciou um processo nunca dantes colocado em prática a que chamou de afrouxamento quantitativo (quantitative easing). Passou a comprar uma enormidade em títulos públicos e privados antes encalhados. O resultado foi o despejo de US$ 3,5 trilhões (veja o gráfico no Confira), o mesmo volume de dólares fornecidos em pagamento pelos títulos.

O objetivo foi desempacar a economia e garantir a volta dos empregos. Sete anos depois, o objetivo foi dado como atingido. O PIB dos Estados Unidos cresce a 2,4% e o desemprego, que já esteve a 10,0%, caiu a 5,0%. Depois de muita vacilação sobre quando começar a reverter a operação, o Fed, presidido por Janet Yellen, finalmente decidiu que começaria na reunião marcada para hoje.

Em termos práticos, a revenda dos títulos vai tirar dólares da economia. Os juros devem subir por força da lei da oferta e da procura: com a redução de moeda em circulação seu preço tende a subir. O principal efeito esperado é a valorização do dólar diante dos outros ativos. Um dólar mais robusto, por sua vez, comprará mais coisas e mais serviços do que comprava até agora.

E aí está o novo problema a ser enfrentado pelo Fed. O custo de vida nos Estados Unidos, que rasteja ao ritmo de 0,5% em 12 meses, tende a minguar ainda mais e leva o risco de resvalar para uma situação de deflação, o que seria um problema tão ou até mais grave do que a inflação, porque levaria o consumidor a adiar suas compras, reduziria a arrecadação do governo e aumentaria as dívidas em termos reais.

A deflação não seria consequência apenas dessa valorização do dólar. Teria a ver, também, com o tombo dos preços das commodities, a começar pelos do petróleo. Há um ano, o preço do galão de gasolina (3,78 litros) ao consumidor estava a US$ 2,50; agora, está a US$ 1,95 e pode cair ainda mais. Ou seja, sobram dólares no bolso do americano.

Do ponto de vista dos países emergentes, como é o caso do Brasil, a reversão do afrouxamento quantitativo tende a ser outra encrenca. Derrubará ainda mais os preços das commodities (todas cotadas em dólares); aumentará os juros da dívida externa; em vez de fluir para os países emergentes, os dólares tenderão a tomar o rumo dos Estados Unidos; e o crescimento da economia mundial, que já vinha mequetrefe, pode se desacelerar e, portanto, reduzir as encomendas ao Brasil.

Falta saber em que proporção e em que ritmo acontecerá esse processo de reversão. Em princípio, o Fed vai começar com cuidado redobrado, porque é a primeira vez que um grande banco central navega por essas águas e enfrenta risco tão grande de deflação.

Se confirmada, essa suavidade pode servir de anestesia para uma operação que há alguns meses levantava tantos temores que foi chamada de tempestade perfeita. A conferir.

CONFIRA:

Aí está o ritmo em que o Federal Reserve (banco central) despejou US$ 3,5 trilhões na economia, na operação de afrouxamento quantitativo.

Critério de Meta

Uma razão forte que levou o Fed a iniciar o enxugamento de dólares foi o comportamento do chamado núcleo de inflação, que exclui preços dos alimentos e da energia. Em 12 meses, a evolução do núcleo de inflação saltou para 2%. A meta informal de inflação (não há lei para isso), de 2% ao ano, não é medida pelo custo de vida (índice de preços ao consumidor), mas pelo núcleo de inflação.

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