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O filme queimado?

Grande interrogação é se impopularidade de Temer contamina agenda liberal

Fernando Dantas*, O Estado de S.Paulo

28 Julho 2017 | 05h00

A pesquisa CNI/Ibope divulgada ontem revela que Michel Temer se tornou o presidente mais impopular desde a redemocratização. Por outro lado, o presidente, como se sabe, governa com uma agenda econômica ortodoxa, liberal e reformista, que agrada mercado financeiro, boa parte do empresariado (a não ser pela redução dos subsídios ou pela reoneração tributária) e parcela significativa dos formadores de opinião.

Não se pode dizer que a política econômica de Temer tenha fracassado. É verdade que a atividade está demorando muito mais para se reerguer do que se previa em meados do ano passado, e que o desemprego permanece em nível recorde. Mas a economia foi estabilizada, os juros estão despencando e, salvo grandes surpresas, deve haver crescimento modesto no ano eleitoral de 2018.

O escândalo das fitas de Joesley jogou para o espaço a reforma da Previdência e o governo enfrenta uma situação fiscal gravíssima, mas não há descontrole total como, por exemplo, no fim dos governos de Dilma e Sarney.

Chegou-se a uma situação, portanto, em que o governo que vem tentando realizar o fundamental ajuste da economia tornou-se mais impopular do que aquele que a arruinou com a nova matriz econômica.

Uma grande interrogação é até que ponto a enorme impopularidade de Temer contamina a agenda liberal de política econômica, e está criando as condições para que um candidato populista saia vitorioso em 2018, e ponha-se a desarrumar a casa de novo.

É claro que a rejeição a Temer vem em boa parte dos escândalos que o envolveram e a vários dos seus ministros e ex-ministros. Ainda assim, é razoável pensar que o mau humor popular se estenda para a política econômica que até agora nem reduziu o desemprego nem botou a economia para andar.

Segundo o cientista político Carlos Pereira, da Ebape/FGV e professor visitante em Stanford, “é preciso fazer uma distinção entre coalizão dominante e opinião pública”. A “coalizão dominante”, na sua definição, são os políticos do Congresso e do Executivo e mais grupos influentes como empresariado, mídia, etc.

Pereira considera que as crenças da coalizão dominante são mais determinantes da política econômica do que a opinião pública. Assim, ele diz que Temer tem chances de sobreviver se governar de acordo com a crença da coalizão dominante, que o cientista político identifica com a “inclusão social responsável”, que reúne distribuição de renda e política econômica ortodoxa.

Pereira prevê que “o novo presidente eleito também tenderá a manter essa agenda reformista até o Brasil voltar ao trilho da inclusão social responsável”.

Já para Marcus Melo, cientista político da Universidade Federal de Pernambuco, a impopularidade de Temer é um fato político bem menos relevante do que a de Dilma.

A razão é que Dilma foi eleita pelo voto popular para o cargo de presidente e despencou da típica lua de mel inicial, com índices de popularidade superiores a 70%, para os níveis mínimos das vésperas do impeachment. Já Temer chegou ao atual cargo por circunstâncias institucionais, e não pelo voto, nunca desfrutou de lua de mel com o eleitorado, jamais foi considerado seriamente como candidato a presidente e tem um papel típico de “caretaker”, expressão que significa alguém que toma conta do governo numa fase de transição.

Um contraponto à visão relativamente otimista de Pereira e Melo é feito pelo analista político Ricardo Ribeiro, da consultoria MCM. Para ele, a impopularidade de Temer não contamina tanto a agenda liberal, mas contamina o PSDB, que ainda é o partido que mais seguramente defende essa plataforma.

“É preciso não esquecer que em 2018 a ação sai do ambiente político congressual para o ambiente político eleitoral, no qual a visão do mercado tem muito menos força”, alerta Ribeiro.

* COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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