O fim da alquimia cambial

Crises econômicas são rotineiras na história da Humanidade, sendo em geral precedidas por fases de prosperidade. A sensação de “já ganhamos” resulta na acomodação dos governantes e dos agentes privados. No embalo, ambos tendem a desligar os sensores de controles de riscos, conforme destacam Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff.

Nathan Blanche*, O Estado de S. Paulo

09 Junho 2016 | 08h06

Após a crise mundial de 2008, o governo do PT, em tentativa de sustentar o forte crescimento econômico até então, rasgou a Carta ao Povo Brasileiro e amputou o tripé de sustentabilidade macroeconômica herdado do Plano Real. No seu lugar, adotou sua velha doutrina do desenvolvimento populista de esquerda, a exemplo dos regimes da Argentina e Venezuela. 

Os resultados não tardaram a chegar. Vivenciamos a maior crise da economia brasileira nas últimas oito décadas, causa principal do alto nível de insatisfação da população e do apoio crescente ao impeachment da presidente Dilma. 

A nova e excelente equipe econômica nomeada pelo presidente em exercício Michel Temer tem enormes desafios para solucionar as distorções geradas pelas políticas macro e microeconômicas implementadas nos últimos anos, com destaque para a degradação das contas públicas, cujo risco, mantidas as condições atuais, é a insolvência. Porém, outros aspectos da política econômica, negligenciados ao longo dos últimos anos, merecem atenção.

Um deles refere-se à formação das taxas de câmbio. A postura ultraintervencionista do Banco Central (BC) e da Fazenda neste mercado – especialmente durante o primeiro mandato da presidente Dilma – gerou impactos fortemente negativos na confiança dos agentes e nos setores influenciados pela variável, além de custos elevados com a política de swaps cambiais. A retomada da credibilidade dos investidores internos e externos também depende de um sinal incisivo sobre a nova política cambial, particularmente proveniente do novo presidente do BC, no sentido de indicar que a formação da taxa de câmbio será flutuante, ou seja, dada pelos mecanismos de mercado. 

Isto é importante tendo em vista o histórico dos últimos anos, em especial, a partir de junho de 2013, quando o BC tentou segurar a taxa de câmbio, para conter os impactos na inflação, por meio de intensa intervenção no mercado com as ofertas diárias de swaps cambiais. Ao longo desse período foram colocados mais de US$ 400 bilhões. 

A melhora observada na conta corrente não está relacionada a essa política cambial dos últimos anos. A conta corrente, que atingiu um déficit de 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014, tende a fechar este ano perto do seu equilíbrio. Este aparente êxito é resultado da recessão e da expressiva desvalorização do real, que, na prática, representa o empobrecimento da Nação perante o resto do mundo. 

O PIB em dólares no biênio 2014/2015 sofreu uma redução de 26,7% e o PIB per capita, uma queda de 27,3%. As importações reduziram-se em 25,3% (em valor), reflexo da depreciação do câmbio e da contração de consumo das famílias (-4,1%) e investimentos (-14,1%). As exportações, por sua vez, registraram queda em valor (-15,0%), mas com aumento da quantidade exportada, diante do ganho de competitividade proporcionado pela queda do custo unitário do trabalho em dólares, de 21,7% em 2015.

Mas há saídas. Tendo em vista a combinação de lento crescimento e baixa inflação dos países avançados, as taxas de juros globais devem permanecer baixas para padrões históricos. Isso significa que o mercado internacional continuará favorável à retomada de investimentos no Brasil, caso haja estabilidade política e implementação da agenda econômica anunciada pela atual equipe, inclusive envolvendo uma maior abertura e acordos comerciais bilaterais. 

Um recente sinal nesta direção veio da bem-sucedida captação externa feita pela Argentina, de US$ 16,5 bilhões (com demanda total acima de US$ 60 bilhões), após anos de ausência dos mercados globais. Que isto sirva de incentivo aos agentes para apoiarem as mudanças propostas pela nova equipe econômica e que vão na direção correta, de ajuste dos desequilíbrios e da retomada dos ganhos de produtividade.

*É SÓCIO-DIRETOR DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA INTEGRADA

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