REUTERS/Aly Song
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O fim da economia como a conhecemos

Crise da pandemia do coronavírus deve trazer mudanças importantes na economia mundial, incluindo a

Neil Irwin, The New York Times

20 de abril de 2020 | 17h34

Quando eventos importantes e convulsivos ocorrem, as implicações costumam aparecer depois de anos e tomam direções imprevisíveis. Quem imaginou que uma crise decorrente de uma inadimplência no pagamento de hipotecas em áreas suburbanas dos Estados Unidos, em 2007, levaria a uma crise fiscal na Grécia em 2010? Ou que o colapso da bolsa em Nova York em 1929 contribuiria para a ascensão do fascismo na Europa nos anos 1930?

A economia mundial é uma teia infinitamente complicada de interconexões. Todos nós mantemos série de relações econômicas diretas que conseguimos ver: as lojas onde compramos, o empregador que paga nosso salário, o banco que nos faz um empréstimo imobiliário. Mas quando você sobe dois ou três planos é realmente impossível saber com confiança como essas conexões funcionam. Isto, por outro lado, mostra o que é inquietante no caso de uma calamidade econômica acompanhando a propagação do novo coronavírus.

Nos próximos anos saberemos o que acontece quando essa teia é desfeita, quando milhões de elos são destruídos, todos ao mesmo tempo. O que abre a possibilidade de uma economia global totalmente diferente da que prevaleceu nas últimas décadas.

“Por mais que esperemos que conseguiremos retornar à atividade econômica normal, este é somente o início do nosso problema”, disse Adam Tooze, historiador da universidade de Columbia e autor de Crashed, um estudo dos efeitos em cascata globais da crise financeira de 2008. “Este é um período de extrema incerteza de uma magnitude maior do que qualquer coisa que nós conhecemos”.

Seria insano, em meio a tamanha incerteza, fazer previsões seguras sobre como a ordem econômica mundial será daqui a cinco anos ou mesmo cinco meses. Mas uma lição desses episódios de tumulto econômico é que essas ondas de choque surpreendentes tendem a resultar de fragilidades de longa data não resolvidas. As crises têm uma maneira de trazer à tona problemas que são fáceis de ignorar nos bons tempos.

Um candidato óbvio é a globalização, em que as empresas mudam sua produção para qualquer outro lugar no mundo que seja mais econômico, as pessoas embarcam num avião e vão para qualquer parte e o dinheiro circula onde seu uso é mais eficaz. A ideia de uma economia mundial com os Estados Unidos no centro já vinha desmoronando, entre a ascensão da China e a própria conversão dos EUA ao nacionalismo.

Cadeias logísticas

Existem sinais de que a crise da Covid-19 está ampliando e possivelmente consolidando essas mudanças. O ministro das Finanças da França orientou as companhias francesas a reavaliar suas cadeias logísticas para ficarem menos dependentes da China e de outras nações asiáticas. A agência alfandegária e de proteção de fronteiras dos Estados Unidos anunciou que irá confiscar exportações de determinados suprimentos médicos. E, na sexta-feira, a senadora Lindsey Gray sugeriu que os Estados Unidos punam a China por não ter conseguido frear o vírus cancelando a dívida que o governo chinês detém – uma medida que pode colocar em risco o papel dos títulos do Tesouro americano de alicerce do sistema financeiro mundial.

Mesmo antes do coronavírus, os limites da globalização estavam se tornando mais claros. O comércio como uma parcela do Produto Interno Bruto (PIB) atingiu seu pico em 2008 e desde então a tendência foi de queda. A eleição de Donald Trump para presidente e o início da guerra comercial com a China já tinha levado empresas multinacionais a reavaliar suas operações. “Acho que as empresas estão falando ativamente sobre resiliência”, disse Susan Lund, sócia da McKinsey que estuda a interconectividade global. “A que ponto as empresas estão dispostas a sacrificar a eficiência em favor da resiliência no longo prazo, seja por desastres naturais, crise climática, pandemia, ou outros choques?”, continuou.

Ela visualiza não tanto uma retirada em escala total do comércio global e mais uma mudança na direção de blocos comerciais regionais, com mais empresas incorporando redundância nas redes de fornecimento. Os governos provavelmente insistirão que determinados produtos, como os farmacêuticos e equipamentos médicos, dependam mais da produção doméstica diante da atual luta global para obtenção de tais produtos.

A China tem reorientado sua estratégia econômica com o fim de não ser mais um centro de manufatura barato para o mundo, mas uma fabricante de produtos tecnologicamente avançados, como aeronaves e equipamentos de telecomunicações. O que tem tornado americanos, europeus e japoneses mais relutantes em manter grandes operações na China, temendo o roubo de propriedade intelectual.

Num episódio passado de de-globalização, uma reversão do comércio global que ocorreu em meio à Primeira Guerra Mundial e na epidemia de 1918 – também se verificou uma reformulação do sistema financeiro global, com a libra britânica perdendo seu predomínio. Esse tipo de coisa pode ocorrer desta vez também, mas os sinais iniciais apontam para uma outra via: do dólar se tornando ainda mais entranhado no centro do sistema financeiro global.

A Reserva Federal dos Estados Unidos lançou linhas de swap com 14 bancos centrais estrangeiros – o que lhes permitirá injetar dólares nos seus sistemas bancários domésticos e iniciar um novo programa que permite aos países obterem dólares usando títulos do Tesouro como colaterais. Essas medidas ajudam a assegurar que uma escassez global de dólares não paralise a economia mundial.

As autoridades europeias têm sido mais relutantes em adotar medidas que tornariam o euro mais crucial para o sistema monetário mundial, como uma emissão de títulos garantidos conjuntamente pelos países da zona do euro. E a China reluta em reformar seu sistema financeiro de maneira a permitir à sua moeda, o renminbi, se tornar mais essencial para o comércio mundial, como também possibilitar uma circulação de capital mais livre de entrada e saída da moeda.

Mark Carney, ex-presidente do Banco da Inglaterra, proferiu um importante discurso para presidentes de outros bancos centrais em agosto, afirmando que o sistema monetário internacional e financeiro vigente, com sua forte dependência do dólar, era insustentável. Mas a pandemia pode estar consolidando ainda mais esse sistema falho. “O sistema tendo o dólar no centro é inerentemente instável, mas instável também é uma bicicleta”, comparou o historiador Tooze. “Ambos são instáveis, mas se você é alguém competente, são coisas excelentes. E o FED já provou ser competente na condução da hegemonia do dólar”.

Algumas vezes nos últimos 12 anos surgiu um sentimento de que o mundo estaria revivendo o período de 1918 a 1939, mas era como se isto fosse falado por um estudante distraído analisando os eventos fora de ordem. Aquela era também registrou um colapso financeiro global: uma ascensão de governos autoritários; a emergência de uma nova superpotência econômica (Os Estados Unidos, então, e a China agora); e uma pandemia, embora não nessa sequência.

Podemos não saber exatamente para onde esta crise levará a economia mundial ou qualquer outra coisa. Mas o que está claro é que a história certamente é assustadora quando você não sabe como ela termina. /Tradução de Terezinha Martino

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