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O fim da ficção econômica

O fato é que a política de preços adotada pela Petrobrás vem cumprindo o seu papel

Adriano Pires*, Impresso

27 de janeiro de 2018 | 05h00

No final de 2016 a Petrobrás acabou com a ficção econômica e inaugurou a política de preços dos combustíveis baseada nas tendências do mercado internacional. Era o fim de um longo ciclo em que essa política foi dedicada a atender aos interesses populistas do governo do PT. Do seu início até os dias atuais a nova política de preços passou por duas fases. Na primeira, iniciada em outubro de 2016, os ajustes acumularam reduções por causa do movimento de queda do preço do barril de petróleo. Esse cenário incentivou a Petrobrás a estabelecer prêmios elevados e reajustes mensais tendo como um dos objetivos recompor seu caixa, que foi dilapidado no governo do PT com a política de subsídios à gasolina e ao diesel. Esse prêmio elevado criou, promoveu e incentivou um crescimento significativo das importações de gasolina e diesel por outros agentes do mercado. Finalmente o mercado de combustíveis no Brasil passou a conviver com a liberdade de preços de fato, rompendo de forma clara com a gestão do governo do PT que deixou um buraco no caixa da empresa de US$ 40 bilhões de dólares, culminando na maior crise financeira da história da Petrobrás.

Em junho de 2017, a Petrobrás aprimorou a sua política de preços, aumentando a frequência dos ajustes dos preços da gasolina e do diesel, transformando-os em quase que diários. A explicação é que os reajustes mensais não haviam sido suficientes para acompanhar a volatilidade crescente da taxa de câmbio e das cotações de petróleo e derivados no mercado internacional. Com reajustes quase que diários, os preços nas refinarias da Petrobrás passaram a ficar mais próximos dos praticados no mercado internacional. A redução do intervalo de reajustes mostrou maior alinhamento da empresa com as políticas adotadas em países em que o mercado funciona, como é o caso dos Estados Unidos e Europa. Além disso, vai exigir por parte dos importadores um grau de profissionalismo e competência maior que na primeira fase da política de preços. Isso porque com os reajustes diários o risco de importação aumenta em função dos prêmios terem sido reduzidos. As importações vão continuar até porque não vemos no horizonte investimentos grandes em refino no País. Haverá uma certa seleção natural em que só os bons conhecedores de trading de combustíveis permanecerão no mercado.

Toda essa mudança baseada em regras de mercado só trouxe benefícios para a Petrobrás, importadores, distribuidoras, postos de revenda e consumidores. Entretanto, essa nova precificação dos combustíveis nas refinarias da Petrobrás vem causando certo desconforto e insatisfação daqueles que estão com saudades e, portanto, querem de volta a velha Petrobrás, que era obrigada a pagar a conta dos aumentos do petróleo. O fato é que vícios antigos custam a passar. As estratégias do segmento downstream precisam se adaptar aos novos tempos, sendo necessário que todos os membros da cadeia tenham ciência e responsabilidade no gerenciamento dos seus negócios, seus preços e competitividade, sem culpar os demais por eventualidades. A revenda, por exemplo, que lida com o consumidor final, pode e deve adaptar seus negócios para garantir ganhos, pela adição de serviços nos postos e investimento em tecnologia destinada a ganho de produtividade. Afinal de contas, a busca de competitividade no mercado livre exige soluções próprias.

O fato é que a política de preços adotada pela Petrobrás vem cumprindo o seu papel. As práticas e regras de mercado contribuirão para reduzir os riscos de variações extemporâneas nos preços futuros de combustíveis e trazer estabilidade ao setor. Não podemos permitir que o Brasil volte a viver um conto baseado numa ficção econômica. Precisamos sim avançar, por exemplo, discutindo uma nova política tributária para o setor de combustíveis, talvez instituindo um imposto único, ao invés dos atuais PIS/Cofins e os ICMS estaduais, que nos parece não estarem em sintonia com os novos tempos.

* DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE INFRAESTRUTURA (CBIE)

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