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O fim da privacidade

O ano ainda não terminou, mas, em um retrospecto, a notícia de maior impacto do setor de tecnologia foi o escândalo de espionagem revelado por Edward Snowden, ex-técnico da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA, na sigla em inglês). Nem tanto pelo fato de haver espionagem na rede, mas pelos métodos utilizados e pela extensão da bisbilhotice.

RENATO CRUZ, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2013 | 02h05

O que Snowden revelou foi uma nova forma de arapongagem, no atacado, que se beneficia de todas as vantagens trazidas pela tecnologia digital. A internet facilita e reduz o custo de ações em larga escala. As agências de espionagem americanas se aproveitaram disso: criaram meios de recolher o máximo de informação possível do maior número de pessoas.

No caso de haver suspeita sobre algum indivíduo, suas informações já estão no banco de dados. Num mundo analógico, isso seria impensável. Não haveria como dar conta dos investimentos para armazenar e indexar essa montanha de informação.

Os dados vieram da interceptação de cabos de fibra óptica, de cabos submarinos, de centrais telefônicas, de portas dos fundos colocadas em sistemas desenvolvidos por empresas americanas de tecnologia. A colaboração dessas companhias (criando as portas dos fundos ou simplesmente entregando dados de clientes) pegou mal.

Tanto que, na semana passada, Google, Microsoft, Apple, Facebook, Twitter, LinkedIn, Yahoo e AOL publicaram uma carta aberta ao presidente Barack Obama e ao Congresso dos EUA pedindo restrições às atividades de vigilância. Afinal, a prosperidade dos negócios depende de uma internet livre. E não só dos negócios das empresas de tecnologia. Difícil encontrar um setor econômico, hoje, que consiga sobreviver sem a rede mundial.

Antes de Snowden, parecia haver a internet controlada pelo governo de países como China, Cuba e Coreia do Norte e a internet livre defendida pelos EUA. A realidade mostrou que não é bem assim. É claro que a política americana não chega a definir o que as pessoas podem ver na rede, como os países que abertamente controlam a internet, mas onde está a privacidade dos cidadãos? Pior ainda: onde está a privacidade dos cidadãos de todo o mundo?

A espionagem não poupou chefes de Estado, como a presidente Dilma Rousseff e a chanceler alemã Angela Merkel. O mundo discute como pôr um limite nisso. Depois do fim da Guerra Fria, teve quem apostou que o mundo pendia na direção de uma distopia do tipo Admirável Mundo Novo, em que as pessoas são controladas por um ambiente de hiperconsumismo. E que uma distopia no estilo de 1984, em que as pessoas são controladas por um aparato de hipervigilância, só surgiria em regimes totalitários. Nada disso. Snowden acabou por revelar que, na prática, os dois cenários não são excludentes.

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