MASSIMO PERCOSSI/EFE/EPA - 03/06/2020
MASSIMO PERCOSSI/EFE/EPA - 03/06/2020

Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

O fim da vida como a conhecemos? Até parece

Se nos guiarmos pela história, quando for encontrada uma vacina e a tempestade econômica passar, a vida vai voltar ao que era antes da pandemia de covid-19  

Steven Pearlstein  , The Washington Post

04 de junho de 2020 | 09h30

Quase todos os dias ouvimos algum observador sóbrio e bem-embasado fazer previsões gerais dizendo que o coronavírus vai mudar praticamente tudo em nossas vidas. 

Dizem que a primeira baixa será a globalização, e o suposto desmanche das cadeias de fornecimento global, a desarticulação do regime de comércio global e uma redução dramática no fluxo de mercadorias, pessoas e capitais através das fronteiras.

Por causa do nosso novo medo de perigosos micróbios, devemos acreditar agora que as pessoas pensarão duas vezes antes de embarcar no avião, fazer check-in no hotel, ir a uma apresentação de música ou levar as crianças para o parque de diversões. 

E, depois de descobrir que podem ter o mesmo rendimento trabalhando de casa, a aposta é que os trabalhadores de diversos setores não estejam mais dispostos a fazer o deslocamento diário até o trabalho, mudando para sempre a natureza do trabalho e dando início a um êxodo em massa de Nova York, Seattle, São Francisco e outras cidades caras e densamente povoadas.

A súbita mudança para as compras online trará o fim da loja de departamentos, arrasando também a maioria dos varejistas e restaurantes independentes.

Enquanto isso, centenas de faculdades e universidades serão obrigadas a fechar as portas, e as sobreviventes finalmente aceitarão a lógica pedagógica e econômica de oferecer a maioria de seus cursos online.

Pior ainda, a desigualdade de renda e patrimônio vai se acentuar, as disparidades raciais vão aumentar e todas as esferas do governo ficarão limitadas por um pesado endividamento. Em um surto de histeria que chegou às chamadas da primeira página, o New York Times alertou que os estudantes agora se formando no ensino médio e superior teriam pela frente uma vida de decepções econômicas.

É claro que há algo de verdadeiro e lógico em muitos desses prognósticos, bem como a miopia e o exagero. Mas, se nos guiarmos pela história, quando for encontrada uma vacina e a tempestade econômica passar, a vida vai voltar basicamente ao que era antes.

As pessoas voltarão a frequentar normalmente bares e restaurantes, formando aglomerações em shows de rock, embarcando despreocupadamente em aviões e cruzeiros, e frequentando lojas da moda.

Talvez os estudantes passem a reconhecer ainda mais os prazeres da vida no campus e o valor da interação cara a cara com professores e colegas.

A maioria dos funcionários de escritório vai retomar o trabalho e a colaboração nos escritórios do centro da cidade, com almoços de negócios, participando de conferências e convenções em cidades cheias, energizadas e inovadoras.

E em vez de abandonar as cadeias de fornecimento globais, as empresas vão encontrar maneiras de fortalecê-las, mantendo estoques maiores e recorrendo a uma maior diversidade de fornecedores.

Dito isso, a pandemia vai sem dúvida acelerar algumas mudanças estruturais na economia que já estavam em curso.

A loja de departamentos, por exemplo, está rumando para a extinção já faz tempo. Depois da exagerada consolidação e expansão dos anos 1990, a única forma de as grandes redes alcançarem suas metas de vendas seria com as constantes promoções e descontos da mercadoria, erodindo o lucro e obrigando-as a fazer cortes no atendimento ao cliente e na modernização das lojas, reduzindo ainda mais sua fatia de mercado. 

A queda no preço de suas ações abriu caminho para a aquisição por parte de fundos de hedge e firmas de private equity, implacáveis na pressão pelo corte de custos, no fechamento de lojas e na tomada de empréstimos para pagar dividendos a si mesmos, mas ainda mais ineptos na oferta de valor e experiências animadoras para o cliente. A pandemia finalmente expôs a falência do seu modelo de negócios.

O fim das lojas de departamentos, por sua vez, deve se mostrar o último prego no caixão dos shoppings construídos ao redor delas. O fim dos shoppings vai acelerar a mudança não apenas para o varejo online, mas também para o varejo independente local e as redes que oferecem produtos únicos, formatos criativos e vendedores bem-informados trabalhando em endereços no centro da cidade e em distritos comerciais urbanos acessíveis a pé. Os espaços varejistas mais bem-sucedidos serão aqueles capazes de criar a combinação certa de ofertas únicas e gestão parceira, sem o objetivo de embolsar o maior lucro possível.

Mesmo antes da pandemia, havia sinais encorajadores de que o capitalismo americano começava a deixar para trás seu foco monotemático na maximização do valor para os acionistas. Empresas que ofereciam produtos e serviços ruins começaram a se ver alvo de campanhas de publicidade negativa nas redes sociais, enquanto as empresas cujo modelo de negócios dependia da exploração dos funcionários e da destruição do meio ambiente, ignorando sua responsabilidade diante do restante da sociedade, enfrentam dificuldade cada vez maior para atrair os talentos mais disputados.

A pandemia trouxe novo ímpeto a essa mudança. No futuro, qualquer asilo de idosos ou operadora de cruzeiros que pensar em dar prioridade ao lucro em detrimento da saúde e da segurança do cliente será abatido antes de chegar longe. E, como descobriram Amazon e Smithfield, as empresas que não responderem às queixas dos trabalhadores podem sofrer estragos duradouros em sua marca (o fundador e diretor executivo da Amazon, Jeff Bezos, é dono do Washington Post, onde essa matéria foi publicada). 

Nas semanas mais recentes, empresas maiores habitualmente imunes à pressão pública e à cobertura desfavorável por parte da mídia foram obrigadas a recuar quando foi revelado que receberam crédito do governo em condições especiais originalmente destinado às pequenas empresas em dificuldades. Bancos e outros credores que enrolaram para oferecer alívio para os devedores em dificuldades foram pressionados a fazê-lo. E altos executivos que já se tornaram insensíveis às críticas diante da compensação desproporcional que recebem anunciaram cortes voluntários na própria remuneração.

Aqueles que acompanham o setor sabem que está em curso um desastre em câmera lenta no mercado de dívidas corporativas, com as agências de classificação de crédito correndo para rebaixar a nota das dívidas de empresas excessivamente alavancadas nos setores de energia, varejo, hotelaria e imóveis.

Muitos desses rebaixamentos envolvem empréstimos e obrigações que começaram como investimentos recomendados e agora são vistos como lixo, o que deve obrigar seguradoras, fundos de pensão e bancos a venderem muito. O Federal Reserve está se esforçando para desacelerar esse processo e mantê-lo o mais ordenado possível, mas ainda é grande o nervosismo e a incerteza quanto ao desenrolar desses acontecimentos. Contudo, três coisas parecem certas.

A primeira é que, nos próximos doze meses, veremos uma alta nos pedidos de recuperação judicial e nas reestruturações corporativas, com muito movimento para os bancos de investimento e as firmas de advocacia de Wall Street.

A segunda é que muitas dessas empresas em dificuldades serão vendidas para suas concorrentes, consolidando ainda mais uma economia que já tinha perdido parte da sua vitalidade porque um grande número de segmentos passaram a ser dominados por um punhado de grandes participantes. Esse seria um resultado ruim, ao qual as autoridades de combate à formação de trustes devem resistir, insistindo para que as empresas em má situação não sejam vendidas à outras que já dominam o mercado.

Finalmente, os negócios que sobreviverem a esses abalos devem reforçar seu balanço patrimonial usando os lucros que ganharem para quitar dívidas em vez de recomprar ações ou ampliar os dividendos.

Eis aqui outra previsão que você não vai ler por aí: tudo vai ficar um pouco mais caro. a partir de agora, o instinto de praticamente todos os negócios será o de se preparar para uma pandemia no futuro. Isso pode se manifestar na forma de uma expansão do seguro contra interrupção das atividades que cobrisse pandemias e outros desastres naturais, diferentemente das políticas atuais. 

Ou na forma de uma garantia autônoma das empresas, protegendo sua finanças com uma reserva em caixa maior e reduzindo outros custos fixos, garantindo uma fatia maior daquilo que precisam - mão de obra, suprimentos, capital - em mercados à vista em vez de arranjos mais permanentes. Ambas as estratégias envolvem um custo mais alto, que pode ser repassado ao consumidor com o tempo sob a forma de preços mais altos.

Um dos perigos dessas previsões é a tendência em confundir o que esperamos que aconteça com o que torcemos para que aconteça. No meu caso, torço para que os americanos saiam dessa crise reconhecendo o valor de um governo forte e competente.

Vimos agora o que acontece quando um presidente ignorante deixa de lado os fatos e os especialistas para se dedicar a políticas de antagonismo e engrandecimento pessoal impulsionado por suas necessidades política. Mas, apesar do fracasso do presidente Donald Trump, os americanos responderam muito bem à liderança competente e ágil de outras fontes, mostrando-se notavelmente dispostos a se unirem sacrificando os interesses individuais em nome do bem comum. 

Mesmo furiosos e constrangidos com a falta de equipamento de proteção, a confusa implementação dos testes e a incapacidade de processar os pedidos de seguro dos desempregados, os americanos se orgulharam muito dos funcionários públicos que prestaram atendimento de saúde, ofereceram crédito e isenções fiscais para os pequenos negócios, e seguem coletando o lixo e protegendo sua segurança. Também aprenderam a reconhecer mais o papel vital do governo regulando o mercado.

Já faz décadas que os políticos republicanos começam seus discursos nos clubes privados e câmaras do comércio com as palavras que Ronald Reagan descreveu como as mais temíveis para os americanos: “Sou do governo e estou aqui para ajudar”. O fato de ninguém mais achar graça nessa piada dá uma ideia do quanto a pandemia fez mudar os ventos na política. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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