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O fim de um ''círculo virtuoso''

Há fortes sinais de que a recessão mundial será mais intensa e mais prolongada do que inicialmente se previa. O Japão e a Alemanha já estão em recessão e a economia dos Estados Unidos, onde ocorreu o epicentro da crise, trilha o mesmo caminho. Com um agravante, apontado pelo prêmio Nobel em economia Paul Krugman, em recente artigo: ainda faltam quase dois meses para a posse de Barack Obama na presidência. Até lá, alertou Krugman, a deterioração da maior economia do planeta poderá se agravar pela inércia da atual administração, em fim de mandato.Quanto maior e mais longa for a recessão mundial, mais o Brasil sofrerá. O economista Raul Velloso, em conversa com este colunista, chamou a atenção para o fato de que os elementos que sustentaram o ?circulo virtuoso? de crescimento da economia brasileira nos últimos anos já não existem. ''O Brasil tinha entrado num círculo virtuoso em que havia um horizonte de crescimento bem nítido. Estamos presenciando agora a reversão deste círculo'', disse.Durante os últimos anos, o Brasil foi beneficiado pelo forte crescimento da economia mundial, marcado por uma expressiva valorização dos preços das commodities minerais e agrícolas e por uma grande liquidez. A valorização das commodities permitiu ao Brasil acumular significativos saldos comerciais. A entrada de capitais externos ajudou a financiar o crescimento. O ingresso maciço de moeda estrangeira, resultante do saldo comercial elevado e das aplicações e dos investimentos externos no País, valorizou o real e barateou as importações. Com importações mais baratas, os empresários puderam investir mais e elevar a capacidade produtiva do Brasil.Esse era o círculo virtuoso em que o Brasil estava até a quebra do banco americano de investimento Lehman Brothers. Esse modelo acabou, observou Raul Velloso. ''O dinheiro externo secou e os preços das commodities desabaram'', disse. O preço médio em dólar das commodities já caiu para o mesmo nível de 2003, como mostra o gráfico acima. ''Levou-se cinco anos para que os preços das commodities atingissem o pico e quatro meses para desfazer quase tudo'', constatou Velloso.No dia 4 de julho deste ano, o preço médio da cesta de commodities (petróleo, minerais, grãos, etc.) atingiu o seu pico, registrando US$ 472,4. No dia 10 de novembro último, o preço médio da cesta já tinha caído para US$ 261,3 - uma queda de 45% em quatro meses. O nível mais baixo nesta década foi registrado no início de novembro de 2001, quando a cesta de commodities estava cotada a US$ 185,1.Com a desvalorização brutal do real nas últimas semanas, provocada pela saída de dólares e pelo corte das linhas externas de crédito, as importações ficaram muito mais caras. Assim, as importações de bens de capital ficaram mais difíceis, o que poderá comprometer a renovação e ampliação do parque produtivo brasileiro. ''O pior efeito do câmbio será sobre os investimentos'', disse Velloso.Para ele, a demanda interna já vinha subindo fortemente antes da quebra do Lehman Brothers, o que podia ser percebido pelas pressões inflacionárias. A economia estava crescendo em torno de 6% e o Banco Central foi obrigado a iniciar um movimento de elevação de juros para arrefecer um pouco a demanda. Mas, até então, o investimento crescia a taxa elevada, o que ajudava a atenuar as pressões inflacionárias. Os investimentos ampliavam a capacidade produtiva do País ou, como os economistas preferem dizer, o Produto Interno Bruto (PIB) potencial brasileiro.O cenário para os próximos meses, advertiu Velloso, é de pressão sobre os preços provocada pela maxidesvalorização do real e de queda no ritmo de investimentos, o que poderá levar o Banco Central a subir os juros. Isto porque se o ritmo de investimento for reduzido, também cairá o PIB potencial do País, ou seja, a capacidade dos produtores de atender à demanda. A redução do ritmo de crescimento da economia no próximo ano, em decorrência da crise econômica, ajudará a atenuar as pressões inflacionárias, admitiu o economista, mas poderá não ser suficiente.Para reduzir as chances do BC elevar os juros, Velloso recomenda que o governo corte os gastos correntes. A receita do economista é amarga. Ele sugeriu que o governo reveja os aumentos salariais concedidos ao funcionalismo, escalonado em vários anos, e não conceda o aumento real de 5,4% previsto para o salário mínimo em fevereiro do próximo ano, equivalente ao crescimento do PIB de 2007. A receita de Velloso é para que o governo mantenha o superávit primário.

Ribamar Oliveira, email: ribamar.oliveira@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2008 | 00h00

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