O fim de uma história centenária na indústria têxtil

Fechamento da indústria de Tecidos Carlos Renaux, após 121 anos, reflete crise do setor no Brasill

MARINA GAZZONI , ENVIADA ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2013 | 02h05

BRUSQUE (SC) - A Fábrica de Tecidos Carlos Renaux, a primeira indústria têxtil de Brusque, em Santa Catarina, teve falência decretada em 15 de julho, encerrando uma história de 121 anos.

A empresa é uma das três fábricas centenárias abertas por imigrantes alemães e poloneses que formaram um polo têxtil na região e deram à cidade o título de "berço da fiação catarinense".

As outras duas pioneiras - a fabricante de tolhas Buettner, de 1898, e a indústria de tecidos Schlösser, de 1911 - também enfrentam grave crise e estão em recuperação judicial desde 2011.

A Carlos Renaux pediu autofalência por não conseguir executar seu plano de recuperação judicial nos últimos dois anos.

"Tínhamos pedidos, mas a empresa não tinha fio e nem um centavo no caixa para matéria-prima. Cortaram a luz e os salários estavam atrasados. Não tinha como continuar", disse Rolf Bückmann, ex-presidente do conselho e bisneto do cônsul Carlos Renaux, fundador da empresa. 

 Nos galpões escuros, as máquinas paradas ainda têm tecidos nas bobinas. O chão está coberto de fiapos de algodão e restos de tecido. O fim da Renaux provocou 230 demissões. Outros mil empregos já haviam sido fechados na última década.

Hoje, só 28 pessoas frequentam o local. São funcionários contratados pelo administrador da massa falida, o advogado Gilson Sgrott, para fazer rescisões de contratos, separar o estoque que sobrou e garantir a segurança do prédio.

Um deles é Vilson Bluninig, 60 anos, 42 dedicados à empresa. Desde a falência, ele separa os tecidos que sobraram para a venda. "Meu avô, meu pai e minhas irmãs trabalharam aqui. Vi tempos áureos e decadência. Nunca imaginei que a empresa morreria antes de mim."

 

Origem. A crise nas fábricas centenárias de Brusque começou com a abertura comercial no País, nos anos 90. As indústrias sucateadas e mal geridas não conseguiram competir com as importações. Com produção verticalizada, faltou capital de giro para manter o negócio. O modelo dessas empresas concentrava na fábrica todo o processo produtivo, da compra do algodão à entrega da toalha ou tecido. Isso faz com que o prazo entre o investimento nos insumos e a receita com o produto fique mais longo, prejudicando a situação do caixa.

Outro golpe foi a crise do algodão, em 2011, que fez o preço da commodity triplicar em um ano. Na época, as empresas entraram em recuperação e ainda lutam para sair da situação. "Quando a empresa entra em recuperação, a nota de crédito cai para 'Z'. Não conseguimos crédito nos bancos e temos de tomar recursos a 3% ao mês com agiotas", disse o presidente da Buettner, João Marchewsky.

O faturamento da Buettner caiu de R$ 200 milhões, em 2005, para os atuais R$ 80 milhões. Desde então, a empresa demitiu 60% dos funcionários. Metade da fábrica está parada e a empresa começou a produzir para terceiros. "A margem é menor, mas não consome capital de giro", diz Marchewsky.

Um dos clientes é a conterrânea Schlösser, que fechou sua fábrica em dezembro de 2010 para férias coletivas e nunca reabriu. Em outubro de 2012, a Schlösser transferiu máquinas para a Buettner e começou a produzir lá. Sua fábrica antiga, que ocupa um quarteirão no centro de Brusque, só tem dez funcionários da área administrativa, que alternam o expediente entre o prédio vazio e o "puxadinho" na fábrica da Buettner. A empresa chegou a ter 1.900 funcionários nos anos 90. Hoje, o próprio diretor da empresa atende as ligações do PABX.

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