O fim do sonho americano para os empregados da General Motors

Alto custo da mão de obra, com benefícios generosos, foi um dos motivos para o declínio das montadoras dos EUA

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

John Thomas, 28 anos, montava bancos para Cadillacs em uma fábrica nas redondezas de Warren. Ele perdeu o emprego há dois anos e, desde então, faz bicos em construção e sobrevive com o salário-desemprego, que está prestes a acabar. Seu pai, que também trabalhava em uma empresa fornecedora da General Motors, foi despedido há cinco meses. A família inteira foi morar na mesma casa para conseguir pagar uma das hipotecas. John está perdendo as esperanças. "Quando nem o McDonald?s nem o Taco Bell te dão emprego, está na hora de ir embora." Seus amigos já foram.Em Warren está a maior concentração de trabalhadores de montadoras dos Estados Unidos. Nessa cidade e na vizinha Sterling Heights ficam duas fábricas da GM, duas da Chrysler, uma da Ford e inúmeros fornecedores de autopeças. As duas fábricas da Chrysler estão paradas desde que a montadora entrou em concordata, no mês passado. A fábrica da Ford, que chegou a ter dois turnos de sábado a sábado, agora só tem um turno, de segunda-feira a sexta-feira.Boa parte das casas de Warren está vazia - os donos foram embora depois de perderem o emprego e não conseguirem pagar a hipoteca. Muitas lojas fecharam.As promoções nas concessionárias têm ar de desespero. Na Saturn, uma das marcas da GM à venda, pode-se fazer financiamento de cinco anos, com juro zero. Na Chrysler, na compra de um Jeep financiado, ganha-se US$ 6 mil em dinheiro de volta, na hora.DEMISSÕESNos últimos 12 meses, desde que se agravou a situação das Três Grandes - GM, Chrysler e Ford - foram demitidos 223 mil operários de montadoras e indústrias de autopeças nos EUA. Nos últimos dez anos, as demissões chegam a 650 mil. Em Warren, cidade de 126 mil habitantes, o desemprego é de 17,3% e a taxa nacional, de 9%.Mas não são apenas os operários desempregados que estão sofrendo. Com a crise das montadoras, os aposentados começam a perder benefícios. Ray Hiatt, de 65 anos, trabalhou 38 anos na Chrysler e se aposentou há cinco. A partir de 1º de julho, perde o direito à assistência odontológica e oftalmológica, parte do acordo do sindicato United Auto Workers (UAW) com a empresa durante o processo de concordata.Cerca de dois milhões de trabalhadores e aposentados dependem da assistência médica das montadoras. "Tenho medo até de perder a aposentadoria alguma hora, vai saber", diz Ray. Seu filho, Tim, foi despedido de um fornecedor há um ano e não achou outro emprego. Ele não tem os dentes da frente. Como muita gente, Tim perdeu um emprego na fábrica, que pagava US$ 23 a hora, e está procurando qualquer coisa que pague US$ 7, fazendo limpeza ou construção.?GENEROUS MOTORS?Um dos motivos para o declínio das Três Grandes foi o alto custo da mão de obra sindicalizada, com benefícios generosos e um passivo insustentável de aposentadoria e assistência médica. A GM era chamada de "Generous Motors". Montadoras estrangeiras nos Estados Unidos, como Toyota e Honda, que têm fábricas no sul, têm custos menores de mão de obra.Como parte da reestruturação da Chrysler e da GM, o governo americano passa a ser o principal acionista. A "Government Motors", como já está sendo chamada a GM, será bem menos mão aberta.Os funcionários e aposentados não estão muito contentes com o novo acionista, embora não tenham alternativa. "O governo quer dizer que carro as pessoas podem dirigir - não adianta, família grande não vai enfiar seis filhos em um híbrido. Americano gosta de carrão", disse Les Rector, aposentado, que trabalhou 44 anos na Ford."Comparado com o que fizeram para Wall Street - um monte de dinheiro sem exigências -, estão dando só mesmo uma esmola para as montadoras."

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