'O fio não agüentou', diz Amorim sobre fracasso de Doha

Chanceler brasileiro admite que não haverá mais tempo para concluir negociações durante governo Lula

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

29 de julho de 2008 | 17h10

O chanceler Celso Amorim admite que não haverá mais tempo durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para fechar um acordo multilateral de comércio na OMC e chega a sugerir que os países ou ministros que foram designados para tentar superar o impasse até mesmo sejam mudados. Ao concluir a reunião desta terça-feira, 29, em Genebra, Amorim falou com Lula por telefone. "O presidente Lula me disse: 'Celso, valeu a pena'", contou o chanceler.   Veja também: Negociações da Rodada Doha fracassam com impasse agrícola Os problemas que levaram as negociações ao fracasso Vencedores e perdedores após colapso de Doha Principais datas que marcaram a rodada Veja a reação no Brasil após o fracasso das negociações da OMC   Amorim, que dedicou grande parte de sua gestão em obter um acordo e deixar a Rodada como um de seus legados, sabe que ele mesmo não deverá ser o ministro quando o processo for concluído, se é que haverá um acordo. "Vai levar agora muito tempo para voltar ao jogo. Provavelmente com novas pessoas, novos jogadores. Essas pessoas virão com idéias, mas vai exigir avaliações novas", disse.   "Eu disse que a Rodada estava por um fio. O fio não segurou. É lamentável. Ouvimos apelos de países para que tentássemos ainda continuar. Mas acho que sou o mais velho e inocente. Eu seria o que mais apostaria num acordo. Fracassamos, mas se eu fosse o técnico, substituiria os jogadores para ver se conseguíssemos um acordo. É inacreditável que fracassamos em apenas um ponto. Mude o time e tente de novo", afirmou Amorim.   O apelo por um novo time ainda foi interpretado como um alerta de que os sete países e ministros escolhidos não seriam suficientes para solucionar a crise. Um deles, o indiano Kamal Nath teria inclusive pretensões de se candidatar a presidente na Índia e adotou uma agenda política em Genebra. A OMC convocou para mais de cem horas de negociação nos últimos dias o Brasil, Estados Unidos, Europa, China, Índia, Japão e Austrália.   Outros interpretaram como um alerta de que o atual governo americano não estaria disposto sequer a negociar e que a nova administração poderia ser uma solução. Questionado se haveria tempo de fechar um entendimento ainda durante o governo Lula, Amorim não deu esperanças. "É só fazer os cálculos", disse. O governo tem mais dois anos de mandato. Em Genebra, as melhores previsões falam de mais três anos para permitir que haja um acordo.   A mudança de governo no Brasil não seria o único fato político que atrasaria o processo. No ano que vem assume uma nova administração  americana e, no ano seguinte, é a vez da Índia passar por eleições. "Eventos políticos terão impactos", disse.   "Vim concluir a Rodada. O Brasil fez tudo o que pode", afirmou Amorim. "Minha avaliação é de que tínhamos um bom pacote e que seria bom para economia mundial e para o Brasil. Estou muito desapontado", afirmou.

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