'O FMI e os peronistas me derrubaram'

Dez anos após o 'corralito', que bloqueou a conta dos argentinos, De la Rúa diz que caiu por causa de uma conspiração

Entrevista com

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE, BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2011 | 03h06

No próxima quinta-feira (dia 1.º de dezembro), os argentinos vão completar 10 anos de uma das piores datas de sua história. Nesse dia, atingido por uma fuga de divisas e uma corrida bancária, desesperado para conter a conversibilidade (que determinava a paridade um para um entre o dólar e o peso), o presidente Fernando De la Rúa decretou o "corralito", denominação de um mega confisco bancário. A medida levou milhões de argentinos às ruas para protestar contra o governo. Vinte dias depois, De la Rúa renunciava ao cargo e a Argentina mergulhava na pior crise social, econômica e política de seus quase 200 anos de vida independente.

De La Rúa, hoje com 74 anos, foi um dos mais breves presidentes civis da Argentina (seu governo, durou dois anos e 10 dias). Ele diz em entrevista ao Estado que uma conspiração de peronistas e do FMI o derrubou. Na época, foi acusado de "relapso" e "esclerosado" . A seguir, os principais trechos da entrevista:

O sr. diz que o fim de seu governo foi o resultado de uma conspiração...

Sim, houve uma conspiração preparada por líderes do Partido Justicialista. O então senador Eduardo Duhalde estava por trás disso. A conspiração foi preparada muitos meses antes. Em outubro de 2001 o peronismo venceu as eleições parlamentares. Tentei contatos com os peronistas para buscar um governo de união nacional. Tive respostas favoráveis, inclusive de Duhalde. Propus um gabinete com integrantes do peronismo. Mas eles concluíram que deveriam ter todo o poder. (O ex-presidente Raúl) Alfonsín me disse na época que havia tido uma reunião com Duhalde, e este lhe havia dito que o mandato presidencial deveria ser concluído pela aliança UCR-Frepaso. Mas, com o detalhe de que deveria ser outro o presidente, e não eu. Isto é, Duhalde já estava nessa atitude de 'deus ex-machina'. José Maria Aznar me disse um dia que Duhalde havia telefonado para ele em Madri, explicando que assumiria a presidência da Argentina e por isso precisava de ajuda. Isso foi uns três meses antes do fim de meu governo. Aznar respondeu-lhe que na Argentina havia um presidente - isto é, eu - e era meu amigo. Os peronistas, em 20 de dezembro, enviaram pessoas para fazer desordens. Essa foi uma jornada penosa, trágica, que recordo com dor. Insisto que meu governo nunca deu ordens de matar os manifestantes.

Arrepende-se de alguma coisa nos dois anos de governo? O corralito agravou a crise e levou milhões de argentinos à pobreza...

Mais do que me arrepender, destaco as coisas que me doeram. Me doeu o corralito, pois já me doía a corrida bancária. Tentar lidar com o déficit zero foi doloroso, pois implicava menos dinheiro para os funcionários públicos. Às vezes me pergunto...(sua voz treme) se por acaso poderíamos ter tentado o caminho de nos autofinanciar internamente. Emitindo bônus, por exemplo. Mas isso seria uma medida muito perigosa, pois poderia ter acelerado a inflação e agravado a crise. Com certeza o FMI teria dito que não eram suas políticas, mas sim erros nossos. Mas foi o FMI, e sua presidente Anne Krueger, que quiseram nos afundar. Os objetivos do FMI e de Duhalde eram os mesmos.

Na mesma época, outros países da região estavam com problemas. Um deles era o Uruguai, mergulhado na crise desde 1999, que só piorou com o contágio da crise argentina. Mas ali o presidente não teve de renunciar...

É que nos outros países da região existia uma oposição responsável. No caso do Uruguai, o então líder da oposição, o socialista Tabaré Vázquez (eleito presidente em 2004) declarou respaldo ao presidente Jorge Batlle. E mesmo no Brasil, onde a situação de dívida era parecido à nossa, houve uma transição construtiva entre Fernando Henrique e Lula.

O Brasil, naquele período, conseguiu evitar uma grande crise...

O Brasil teve uma vantagem adicional, pois o FMI temia o contágio da economia brasileira, e aí o Fundo forneceu créditos de contingência ao país vizinho, para prevenir qualquer perigo. Eu me queixo do fato de o Brasil não ter nos alertado do propósito do Fundo Monetário de derrubar a Argentina. Mas compreendo os brasileiros, pois sentiam a necessidade de salvar-se. E o resultado é que o Brasil evitou o calote da dívida e hoje em dia é o destino de enormes investimentos internacionais. Mas a Argentina teve o calote, declarado por aqueles que vieram depois de mim. E deu no que deu. Ainda temos problemas de credibilidade, o país é um pária internacional.

Os governos do ex-presidente Néstor Kirchner e da presidente Cristina Kirchner mantiveram uma relação tensa com o FMI...

Reconheço no presidente Kirchner uma boa atitude, de ter denunciado publicamente aquilo que o FMI fez com a Argentina. E, além disso, Kirchner rompeu relações com o Fundo.

Concorda com o casal Kirchner somente nesse ponto ou tem mais convergências com ambos? Tenho uma imagem positiva deles. O problema são os abusos de concentração de poder. O confronto permanente. Os excessos. Além disso, a falta de medidas para adotar em épocas de crise econômica. Eles se acostumaram a ver "vento de popa" da economia internacional na maior parte do tempo. E agora deve vir um tempo de ajuste perigoso. Mas a linha geral está bem, especialmente o fato de terem recuperado o poder da presidência.

Em breve começará seu julgamento sobre seu suposto envolvimento no denominado 'Caso Banelco', o escândalo de pagamento de subornos para a aprovação da lei trabalhista no ano 2000, que os sindicatos rejeitavam...

Tenho pressa em mostrar que sou inocente. Este processo tem como base falsidades, baseadas em rumores. Querem envolver um presidente em algo que não é sério. É como a acusação de compra de votos feita sobre Fernando Henrique Cardoso na votação para reformar a Constituição que permitiu a reeleição. Naquele caso e no meu, não há nada sério.

Como acha que a história o recordará?

É muito difícil saber. A verdade é que não acredito que lembrarão de mim. Se servir para algo, será para extrair uma experiência de como tentar lidar com uma crise.

Em dezembro de 2001 o sr. teve de deixar a Casa Rosada de helicóptero. Dez anos depois, como as pessoas o tratam na rua?

Bem, me tratam bem, com respeito. De vez em quando alguma pessoa me gritava algo. Mas isso não acontece há tempo. Atualmente existe mais compreensão das coisas que aconteceram naquela época.

É verdade que foi vítima da crise, do ponto de vista das finanças pessoais? Foi pego pelo 'corralón' do governo Duhalde?

Sim (com voz grave), mas é uma coisa que não saio comentando.

Antes o sr. disse que o fim de seu governo doeu muito. Por acaso deprimiu-se ao sair do poder?

Aprendi que devemos ser sempre os mesmos tanto quando estamos em cima, em altas posições, como nos momentos em que a gente está por baixo. Mas me dói pensar que poderia ter conseguido outros objetivos. Se tivesse tido um pouco mais de tempo... Só de pensar que quase um ano depois o país começou a melhorar, até pela alta do preço da soja!

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