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O FMI em mudança

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, sugeriu um mandato tampão para o sucessor imediato de Dominique Strauss-Kahn como diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Pela proposta, quem for eleito nas próximas semanas ficará no posto até 2012, sem direito a um período completo. Até lá, segundo o ministro brasileiro, haverá tempo para os vários governos, ou grupos de governos, prepararem a sucessão. A ideia pode parecer razoável, porque todos foram surpreendidos pela prisão de Strauss-Kahn. Ninguém estava preparado para uma campanha segundo os novos critérios, com candidatos europeus e não europeus. Pelo sistema tradicional, combinado entre as principais potências vencedoras da Segunda Guerra, o FMI seria chefiado por um europeu e o Banco Mundial, por um americano. Na prática, a regra talvez se imponha mais uma vez, se vencer a candidata da União Europeia, a ministra das Finanças da França, Christine Lagarde.

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2011 | 00h00

Formalmente, no entanto, o velho regime foi enterrado antes da prisão de Strauss-Kahn, acusado de violência sexual por uma camareira de hotel de Nova York. O Comitê Monetário e Financeiro do FMI, o órgão político mais importante da instituição, já havia recomendado a mudança do critério. O próprio diretor-gerente se havia comprometido, segundo se informou na semana passada, a conduzir uma sucessão aberta a candidatos de quaisquer dos 187 países-membros.

A Diretoria Executiva do FMI, responsável pela escolha, divulgou as condições da próxima eleição e o perfil desejável do novo diretor-gerente. Segundo a nota, a eleição será baseada exclusivamente no mérito, como havia recomendado o Comitê Monetário e Financeiro. Não há referência a nacionalidades e os possíveis candidatos são mencionados como "ele" ou "ela".

Por enquanto, a candidatura com maior chance de êxito parece mesmo a de Christine Lagarde, com apoio de todos os governos da União Europeia. Mas outros nomes poderão surgir. O governo mexicano saiu à frente e apresentou a candidatura de Agustín Carstens, presidente do Banco Central. Ele foi diretor executivo do Fundo, como representante do México, da Espanha, da Venezuela e de países centro-americanos, de 1999 a 2000. De 2006 a 2009 comandou o Ministério da Fazenda de seu país. Entre 2007 e 2009 presidiu o Comitê de Desenvolvimento do FMI e do Banco Mundial. Doutor em Economia pela Universidade de Chicago, ele é respeitado internacionalmente como profissional e como homem público. Carstens foi um dos lançadores, há muitos anos, da campanha por uma distribuição de cotas mais compatível com o tamanho das economias. Por que o México, argumentou o economista, deveria ter menos cotas e votos que a Bélgica, uma economia muito menor?

Carstens formulou seu argumento antes da popularização do termo "emergentes". O debate esquentou alguns anos mais tarde e resultou, afinal, no projeto de redistribuição executado a partir de 2006, na reunião de Cingapura. Naquela assembleia foi oficializada uma alocação especial de cotas para China, Coreia, México e Turquia. Foi um ato quase simbólico, para marcar o começo de uma repartição mais proporcional ao peso conquistado por vários emergentes. Mas ainda havia desacordo sobre critérios e a discussão continuou. Uma ampla realocação, baseada em novos indicadores, entrou em vigor em janeiro de 2011.

A nova distribuição de cotas e votos aumenta o poder dos países emergentes e em desenvolvimento, mas os Estados Unidos, com 16,8% dos votos, mantêm o poder de veto nas grandes questões (a aprovação depende, nesses casos, de pelo menos 85% dos votos). Além disso, americanos e europeus são quase sempre mais unidos que os emergentes e os países em desenvolvimento. Mesmo os Brics - Brasil, Rússia, Índia e China - muito raramente agem de forma articulada. Além disso, africanos costumam acompanhar os europeus em questões importantes nos foros internacionais. É arriscado imaginar a eleição no FMI em termos de uma disputa entre grandes blocos. Se ocorrer algo desse tipo, será uma surpresa. Depois, a hipótese de uma ampla reorientação, se for eleito um representante dos emergentes, é essencialmente uma fantasia. Nos países menos afetados pela crise de 2008, como os sul-americanos, os governos vinham seguindo, com razoável fidelidade, as cartilhas do FMI e do Banco de Compensações Internacionais, de Basileia. Enfim, há o fator cotas e votos: os velhos donos do jogo ainda têm poder para dar as cartas e são bastante unidos. De toda forma, Carstens é um nome de peso. Se eleito, poderá ser inovador, mas já fará muito se continuar a agenda de Strauss-Kahn.

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