O FMI subestimou o Brasil

O Fundo Monetário Internacional aumentou a previsão de crescimento da economia mundial. Agora, 4,2% este ano. A última, de janeiro, era de 3,9%. Mesmo assim, continua cauteloso com os riscos, o endividamento de até 120% do PIB dos países desenvolvidos e os déficits fiscais crescentes. Paradoxalmente, insiste em que os incentivos monetários, fiscais e tributários não sejam retirados ainda neste ano. A economia mundial não está preparada. Se ela cresceu neste trimestre foi por causa desses incentivos. Então, podemos concluir que não há muita saída. As receitas formais do FMI como reduzir os desequilíbrios externos (a Ásia cresce os outros estagnam), reforma financeira, revisão dos estímulos nas economias mais avançadas, combate ao desemprego (esta é uma das recomendações mais insistentes) redução dos riscos soberanos (a tese entrou só depois da Grécia), tudo se assemelha a uma missão impossível.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2010 | 00h00

Mas, muito mais importante, o FMI admitiu no passado que, para consolidar a saída da recessão, é preciso uma coordenação de políticas econômicas, monetárias e fiscais entre os países que chama de "economia avançada". Só que esses países se resumem à União Europeia e aos Estados Unidos. Os europeus já disseram que não nas várias reuniões do G-7 e G-20, ou pelo menos agem dessa forma. Não só não se unem aos outros ? estão desunidos entre si. Eles persistem e se isolam, conformados com um crescimento franzino ? 1%, prevê o FMI ?, um isolamento soberano que os levou a uma queda do PIB de 4,1% em 2009. Os EUA decidiram caminhar sozinhos, às turras com a China, soberba e indiferente a todos. Eles não são mais o sustentáculo do crescimento e do comércio mundiais.

FMI desatualizado. O Fundo prevê um crescimento de 5,5% este ano. Está atrasado. A previsão parte do princípio que os incentivos fiscais serão retirados, reduzindo, assim, o aumento da demanda. Errado. Não leva em conta vários fatores dificilmente reversíveis que estão impulsionando o crescimento: o aumento da renda das famílias, a formação de um verdadeiro "mercado de massa" que se autoalimenta e representa quase 70% do PIB, os investimentos, privados e oficiais que, mesmo insuficientes, geram emprego e consumo. E, além disso, os governos, federal, estaduais e municipais estão antecipando obras, que podem ser supérfluas, improdutivas e até perdulárias, mas, queiramos ou não, estimularão a demanda interna.

Vejam os dados. Para fortalecer a previsão próxima de 7% do PIB, basta ver os dados oficiais da arrecadação divulgados esta semana. Ela não para de crescer. Em março, foi 14,8% sobre fevereiro. Mesmo com isenções, o IPI rendeu mais 14,5%. Sabem por quê? Porque com isenção e tudo, por causa do aumento das vendas, o IPI sobre automóveis cresceu 519%(!!!)

Tem mais. As pessoas físicas pagaram mais 4,3% e o recolhimento na fonte, mais 4,6%. Mas, muito mais significativo, a contribuição ao INSS no primeiro trimestre cresceu 22,8%!!! Isto é, tem mais gente sendo contratada ou ganhando mais ? para a coluna, ambos ?, o que sustenta o vigor da demanda interna, igual ao da China.

O presidente do Banco Central. Henrique Meirelles, defendeu em comissão do Senado, na terça-feira, o aumento dos juros para manter crescimento sem pressão inflacionária. Só que até agora a redução seletiva dos incentivos e o recolhimento aos cofres do BC de US$ 71 bilhões dos R$ 100 bilhões liberados do depósito compulsório não seguraram o aumento da demanda interna. O BC prevê agora um PIB de 5,8%. É difícil prever que um aumento dos juros terá efeito a curto prazo sobre o otimismo dos consumidores.

As vendas ao varejo não param de crescer e os supermercados de vender. As classes D e E, cujo aumento de renda está na base dessa expansão, continuam comprando, porque não podiam comprar o indispensável antes. Vai ser difícil conter essa ânsia de consumo. Só drásticas medidas de desaquecimento econômico, que podem gerar desemprego, conteriam um crescimento do PIB acima de 6%.

Isso é inviável porque, mesmo criando quase 1 milhão de empregos no ano passado, ainda estamos longe de recuperar os 2 milhões que desapareceram na recessão. Economicamente não é recomendável e politicamente é impossível. Vai se difícil segurar o ávido consumidor brasileiro, que só agora vê sua renda aumentar.

Foi isso que o FMI não viu...

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