O fundo do poço da economia já chegou?

Leia a análise, nada animadora, de dois especialistas após a divulgação do PIB

Amilton Pinheiro, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

01 Dezembro 2015 | 11h42

“Ligou para falar do quase obituário da economia brasileira”, afirmou, do outro lado da linha, André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos. Ele se referia ao PIB, divulgado nesta terça-feira (dia 1º) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado mostra que a economia nacional no terceiro trimestre, se comparada com o trimestre imediatamente anterior, recuou 1,7%.

“O números são bem piores do que tínhamos pensando. Nós projetávamos um recuo de 1%, enquanto o mercado estimava queda de 1,2%. Não era esperado uma queda tão forte assim. A gente projetava uma retração em vários componentes da demanda, mas não tão fortes”, disse Perfeito.

Mas para o economista Sérgio Vale, da MB Associados, os números já eram esperados, principalmente se olharmos para o que aconteceu na política entre julho a agosto. “Sim, já era esperado, especialmente pelo terceiro trimestre ter sido politicamente um desastre, com o risco de impeachment presente a toda hora com as ameaças do [Eduardo] Cunha e a perda do investment grade pela Standard & Poor`s (S&P) logo no começo de setembro. O mais complicado é que não chegamos ao fundo do poço ainda e devemos ter nova queda no 4º trimestre (de 2015) e ao longo de 2016 inteiro praticamente”.

O que chama atenção nos números

Se compararmos os números do PIB trimestral desde ano com o mesmo período de 2014, o recuo foi ainda mais acentuado, de 4,5%, sendo a maior retração desde que o IBGE começou a divulgar a série histórica em 1996. Decompondo esses números pelo prisma da oferta, entre os três setores da economia, houve retração em todos: agricultura, recuo de 2,0%, industrial em 6,7% e o setor de serviços teve queda de 2,9%.

“O que mais me chamou a atenção foi uma queda muito forte na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), do investimento, que teve retração de 11,9%. Olhando pelo lado da oferta caiu tudo. Isso é muito preocupante”, analisa Perfeito. 

Vale entende que além da indústria, a retração do setor do serviço se torna também preocupante. “A indústria tem sofrido quedas significativas há muito tempo. Mesmo com alguns setores sendo ajudados pela exportação, a demanda doméstica está muito fraca e leva à piora ainda maior no segmento. Mas isso não é tanta novidade, pois a indústria segue enfraquecida há muito tempo. Dessa vez os serviços que começaram a virar mais intensamente, com quedas que nunca se viu na série do PIB”.

Projeção para o PIB

A Gradual Investimento analisará com mais detalhes os números divulgados pelo IBGE, mas já projeta uma queda do PIB no quarto trimestre de 1,5% em relação ao trimestre anterior. Enquanto a projeção do PIB de 2015, tanto para a Gradual Investimento quanto para a MB Associado, deverá é de uma retração maior do que eles previam anteriormente. Caso as projeções deles se confirmem, o PIB terá uma retração em 2015 de 3,4%, maior do que o recuo de 3% que o governo e o mercado esperam.

Para além do pessimismo

Segundo Perfeito, o problema da economia vem se materializando em números, não há horizonte de melhora e isso já ultrapassa a questão de confiança dos empresários e consumidores. “O problema agora não é só de confiança, pois temos também a questão da deterioração da demanda. O ajuste que estamos fazendo é muito pesado. A ideia no limite é que nós fôssemos, com um certo controle nas contas do governo, gerar um processo virtuoso de investimento, porque você teria uma queda de juros. Nós não tivemos o ajuste das contas do governo suficiente porque o Congresso não aprovou nenhuma medida de longo prazo. Simultaneamente tivemos uma retração muito forte do consumo e dos investimentos”, explica.

Para Vale, da MB Associados, o horizonte de alguma melhora na economia fica a cada dia mais distante. “Estamos passando por uma recessão que chega a ser pior que a do governo Fernando Collor, pois completará praticamente três anos, dado que começou na metade do ano passado, devendo ficar até o final do ano que vem pelo menos. Digo pelo menos porque o cenário em que a presidente Dilma Rousseff permaneça (na presidência) significa nova recessão em 2017”.

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