O futuro da era pós-PC

O surgimento dos dispositivos móveis, como smartphones e tablets, já provoca enormes mudanças nos hábitos da sociedade moderna. Por meio da internet móvel, a comunicação, a busca por informações e o lazer se libertaram das amarras geográficas. Tudo ficou ao alcance de um toque. E isso é apenas o início. Em poucos anos, chegaremos a cinco bilhões de pessoas no mundo conectadas à internet por meio de seu smartphone, realizando todo tipo de atividade: compras, pagamentos, jogos, redes sociais, estudo e TV.

FABRÍCIO BLOISI, FABRÍCIO BLOISI É , PRESIDENTE DA MOVILE, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2012 | 03h05

Esse processo possibilitará a inclusão digital da população brasileira. Dados do Ibope Nielsen indicam que, dentre os 200 milhões de habitantes do Brasil, 82,4 milhões têm acesso à internet. A popularização do smartphone e a pulverização do acesso à web, a partir da enorme base de 255 milhões de linhas de celular habilitadas no País, proporcionarão acesso à internet a uma parcela importante da população brasileira - em muitos casos pela primeira vez.

E será conexão de alta velocidade, pois a chegada da tecnologia 4G vai aliviar o tráfego da rede 3G. As conexões wi-fi também estão cada vez mais disponíveis. A mudança em curso é gigantesca: dezenas de milhões de pessoas usando um dispositivo móvel como principal meio de acesso à rede.

No Brasil, estimativas apontam que o total de smartphones é de 10%. Nos países desenvolvidos, esse índice é bem maior: 29% na Alemanha, 38% na França e mais de 50% nos Estados Unidos. Ou seja, em alguns anos, teremos 150 milhões de brasileiros conectados à internet via smartphones. Por isso, podemos afirmar que o impacto da popularização desse tipo de aparelho será ainda maior por aqui do que tem sido em outros países desenvolvidos. No Brasil, quando se tornar o principal meio de acesso à internet, o smartphone representará a grande força da era pós-PC: conectar tudo e todos à web, viabilizando uma inclusão digital em escala nunca antes imaginada.

Uma barreira para que essa indústria cresça a um ritmo ainda maior por aqui é o preço desses equipamentos móveis, que estão, no Brasil, entre os mais caros do mundo. A boa notícia é que políticas governamentais e investimentos da indústria devem, em médio prazo, baratear fortemente tais aparelhos. Teremos, em 2013, smartphones "de entrada", custando entre US$ 100 e US$ 150. Com preço mais acessível e a consequente expansão do mercado, a realidade será outra.

Essa revolução digital também está mudando as características da indústria. O desenvolvimento de aplicativos pode ser feito em qualquer lugar do planeta, favorecendo a criação de empresas globais. O próprio mercado consumidor também ganhou uma escala inédita. Hoje, um aplicativo de destaque pode ser consumido no mundo inteiro. E há um apetite crescente pelos "apps" que tragam diversão, entretenimento, cultura e facilitem a vida no dia a dia. Só em 2011, estima-se que houve um crescimento de 230% no número de downloads de aplicativos: foram 50 bilhões de downloads.

Desafios. A expectativa é que, até 2015, o mercado de "mobile apps" (os aplicativos para equipamentos móveis) movimente US$ 50 bilhões no mundo, entre a atividade da indústria de desenvolvedores de aplicativos e os serviços móveis para smartphones. Para se ter uma ideia da velocidade de expansão desse segmento, há cinco anos, ele simplesmente não existia.

O desafio para a indústria é investir em inovação e qualificação da mão de obra e fomentar o empreendedorismo, para que o segmento de aplicativos consiga se desenvolver fortemente no País e competir de igual para igual com os principais nomes do mercado. Diversas histórias de sucessosde grandes empresas contaram com a valiosa contribuição de brasileiros. O Facebook e o Instagram, por exemplo, tiveram entre seus fundadores empreendedores nascidos aqui.

Isso reforça a tese de que há muito talento no País - e que precisamos trabalhar para o contínuo processo de aprimoramento de um ecossistema que fomente a inovação, como o que existe no Vale do Silício, nos EUA. Para isso, deve haver um ambiente econômico que conjugue acesso a financiamento, pesquisa aplicada, formação de mão de obra de qualidade e infraestrutura de tecnologia.

A nova realidade impõe a necessidade de agilidade. Para se criar a próxima empresa de US$ 1 bilhão - que, espera-se, seja brasileira - é preciso focar na facilidade de uso dos produtos. A chave do sucesso é desenvolver algo único, quase universal, que caia no gosto das pessoas estejam elas no Brasil, China ou Suécia. Afinal, mesmo com a revolução da era pós-PC, uma coisa não mudou: o consumidor, com seu poder de escolha, continua tendo a palavra final.

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