O G-20 tem o que discutir

A proposta Geithner para superação dos grandes desequilíbrios globais tem pelo menos uma virtude: vai ao coração do problema. Embora falte saber como colocar a ideia em prática, apresenta a vantagem de não lidar com falsos problemas ou só com os sintomas deles.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

A proposta foi ontem encaminhada em nome do governo americano, pelo secretário do Tesouro, Tim Geithner, aos ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do Grupo dos 20 (G-20) países mais importantes do mundo, na reunião que está sendo realizada em Gyeongju, na Coreia do Sul.

Consiste em costurar um grande acordo em que os países superavitários se comprometem a reduzir gradativamente seus superávits em conta corrente (contas externas) e os países deficitários se comprometem a diminuir seus déficits, a não mais que 4% do PIB.

O pressuposto é o de que não há déficit numa ponta sem superávit na outra. Um tanto simplificadamente, um país só consegue exportar mais do que importa se houver outro país ou conjunto deles que importa mais do que exporta.

Os desequilíbrios comerciais, por sua vez, são quase sempre contrapartidas de desequilíbrios orçamentários (rombos fiscais), que geram aumento da dívida, isto é, emissão de títulos, que depois vão ser comprados por países que detêm superávits e, assim, empilham reservas que são formadas por esses títulos de dívida.

Tudo isso junto provoca moedas excessivamente desvalorizadas, de um lado, e moedas excessivamente valorizadas, de outro. Ou seja, o nível do câmbio não passa de consequência de um estado de coisas que gera excesso ou falta de determinada moeda nos mercados.

A proposta tem o mérito de tentar desfazer os desequilíbrios na base e não mais por meio de ajustes cambiais impostos à China e ao Japão, que foram o foco das tentativas até agora. A Alemanha, por exemplo, o segundo maior país superavitário do mundo, nem moeda própria tem e, assim, não poderia participar de um arranjo puramente cambial.

A primeira reação à proposta Geithner foi de um misto de ceticismo, frieza e rejeição, especialmente por parte da Rússia, Índia e China. Como, no entanto, vai no caminho certo, não é projeto a ser descartado liminarmente.

A questão seguinte consiste em saber como essa proposta poderia ser implantada. As autoridades da Alemanha já estão argumentando, com certa razão, que seu governo não pode se comprometer com metas nacionais, na medida em que o país é parte de uma união monetária. Também não se pode exigir que grandes exportadores de commodities deixem de apresentar superávits, como é o caso da Arábia Saudita e da Rússia.

É também necessário que o grande país deficitário, os Estados Unidos, se comprometa com metas confiáveis de equilíbrio fiscal e comercial. E, finalmente, há o problema que os ingleses denominam enforcement, ou seja, o sistema de punições a ser colocado em marcha em caso de desrespeito aos compromissos assumidos. A Organização Mundial do Comércio (OMC), por exemplo, dispõe de um sistema de arbitragem que autoriza retaliações. Mas o Fundo Monetário Internacional (FMI) não conta com nada parecido.

Dependendo das conclusões da reunião de hoje, não é temerário esperar que até o encontro de chefes de Estado do G-20, a ser realizado dias 11 e 12 de novembro, em Seul, a proposta Geithner esteja mais amadurecida.

De menos e de mais

A tabela mostra os desequilíbrios entre os resultados de conta corrente (contas externas) das economias do G-20. Os números negativos indicam o tamanho do déficit e os positivos, o do superávit. É um acordo em torno desses valores que os Estados Unidos estão propondo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.