O galope do bitcoin

O galope do bitcoin

Porém, apesar do crescente interesse, as criptomoedas ainda enfrentam desconfiança

Celso Ming, Raquel Brandão e Mariana Canhisares, especial para 'O Estado', O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2017 | 17h00

Dá para resistir a um investimento seguro que se valorizou 342% apenas em 2017 (até esta sexta-feira)? É o quanto foi a disparada em dólares do bitcoin, a moeda criptografada. (Veja mais no Entenda.)

“Vale a pena observar esse mercado”, escreveram na última semana analistas do Goldman Sachs.

Toda moeda tem três funções: é meio de pagamento, reserva de valor e unidade de valor. Como meio de pagamento, a moeda virtual é limitada porque pode pagar poucas coisas. Reserva de valor o bitcoin exerce por excelência; basta olhar sua valorização. Mas não dá para usá-lo como medida de valor. Ninguém diz, por exemplo, que um imóvel vale dez mil bitcoins.

O retorno de quem estava até agora deitado sobre bitcoins é tão impressionante que outras moedas digitais apareceram. Uma delas é a ethereum, que em 2017 se valorizou 3.584%. Há alguns meses, um grupo de participantes do mercado de bitcoin se separou da rede principal e criou a bitcoin cash, que funciona de forma paralela.

Apesar do crescente interesse, as criptomoedas ainda enfrentam desconfiança. A principal delas provém do fato de não existir instituição intermediária que convalide as transações.

O bitcoin usa o mecanismo de blockchain, espécie de livro-razão virtual que registra as transações em grande cadeia de códigos. É bem mais fácil falsificar papel-moeda do que esse sistema. As trocas são feitas diretamente de um usuário a outro, sem que os envolvidos sejam identificados.

O anonimato parece ter sido o principal fator de interesse. Dá para entender. Vários países fecham o cerco sobre operações de lavagem de dinheiro e quem se dedica a atividades ilícitas recorre ao bitcoin. Daí, a supervalorização.

O anonimato não é 100% garantido. Para o professor da Universidade de Durham Kevin Dowd, não passa de mito: “Mesmo sem nomes, é possível rastrear as trocas feitas com moeda virtual”.

Até agora não existe nenhum mecanismo oficial de controle. Há, sim, o rígido bit license, que funciona em Nova York e a legislação mais permissiva no Japão. Mas em nenhum deles há empenho dos governos. “Difícil haver controle total, pois a demanda por essas moedas sempre existirá”, observa Dowd.

Na análise do coordenador do curso de Direito Digital do Insper, Renato Opice Blum, são dois os caminhos: a completa proibição ou a integração ao sistema financeiro global. A primeira opção seria de difícil sucesso. É como qualquer mercado negro: nenhuma proibição consegue acabar com ele. Mais eficaz seria a regulação, identificando usuários e a movimentação, como acontece com as operações bancárias. O problema é que se criaria um regime monetário duplo. Difícil imaginar como um banco central poderia exercer sua política monetária nesse sistema. E, como lembra Gabriel Aleixo, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, é ruim restringir o uso sem que sua necessidade surja mais claramente. As inovações devem ser fomentadas; não restringidas. O sucesso da internet, por exemplo, se deveu à liberdade para se desenvolver. O Banco Central do Brasil se limita a afirmar que segue observando o comportamento das moedas digitais.

ENTENDA:

» O que é isso

O processo de emissão de bitcoins exige que supercomputadores estejam conectados entre si e em rede. Ligados dia e noite, tentam decodificar complexos blocos de dados gerados em cada transação online. A cada bloco decodificado, bitcoins são gerados e a transação, validada.

Ser um “minerador” é uma das formas de obter bitcoins; mas é difícil, porque exige computadores superpotentes. Outra maneira é a criação de uma carteira virtual e uma conta em bolsa de moedas virtuais, nome dado aos sites em que são feitas as transações. Para garantir segurança, as bolsas buscam se autorregular. Exigem, por exemplo, RG e CPF. Para comprar, basta transferir da conta bancária para a carteira virtual um volume de reais. Outra maneira é aceitar pagamento de serviços em criptomoedas. O valor do bitcoin tende a ser volátil. É definido pela velha lei da oferta e da procura. Mas um fator interfere no preço: quando a moeda foi criada, em 2009, determinou-se superar o limite de 21 milhões de bitcoins. Assim, de ano em ano, cada bloco decodificado remunera menor número de bitcoins. / COM RAQUEL BRANDÃO E MARIANA CANHISARES, ESPECIAL PARA ‘O ESTADO’

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