Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

O gigante agoniza

Apesar da boa probabilidade de que chegue socorro do céu, as ações da General Motors Corporation (GM) seguiram em vertigem.Ontem caíram mais 13%, atingindo seu nível mais baixo desde 1943 na mínima do dia. E não se vê fundo nesse poço. Para os analistas do Deutsche Bank, por exemplo, mesmo com ajuda oficial, o futuro da GM é a "provável falência". Sábado, esta coluna mostrou que o desmanche não começou com a crise financeira. É uma longa história de sobrecargas, erros de estratégia e imobilismo. Hoje convém examinar algumas das implicações de um eventual resgate oficial.O governo Bush não parece sensibilizado pelo desmantelamento do setor de veículos. Aprovou empréstimos de US$ 25 bilhões para que as montadoras desenvolvam produtos mais modernos e competitivos. Mas não quer passar disso. E, no entanto, a ajuda não passa de uma canequinha de liquidez ante as necessidades incomensuravelmente maiores de todo o setor - e não só da GM.O presidente eleito, Barack Obama, mais atento às reivindicações dos sindicatos, entende que a GM é grande demais para quebrar. Se falisse, provocaria um terremoto que destroçaria centenas de bilhões de dólares em riquezas, em empregos e em salários. Por isso, sente que a intervenção será inevitável.O problema é que esse não é um caso isolado, como foi o problemão da Chrysler em 1979. A agonia da GM reflete a agonia de praticamente toda a indústria americana que não consegue competir com a produção asiática. Qualquer que seja, a ajuda oficial terá conseqüências. Se for um empréstimo, endividará as empresas. Se for injeção de capital por meio da aquisição de ações preferenciais, será uma estatização indisfarçada que diluirá a participação dos acionistas privados no capital e afugentará eventuais investidores. Pergunta: se essa ajuda alcançar a Ford, como se espera, isso significaria o alijamento da família Ford do controle da empresa?O mínimo em contrapartida que viesse a ser exigido por essa transfusão seria uma radical reestruturação do setor, com fechamento de grande número de unidades, redução das proporções de cada empresa, dispensa de pessoal e redução dos atuais direitos trabalhistas, dessa vez com seu devido custo político, porque seria feito sob o guarda-chuva oficial. E, se for realizada essa operação de salvamento do setor de veículos, ficará difícil não estender o tratamento às demais empresas do setor instaladas nos Estados Unidos. Mais do que isso, ficará difícil não dar o mesmo tratamento a outros setores da indústria americana igualmente combalidos, como a siderurgia, o setor têxtil e a indústria de aparelhos domésticos.Nessas condições, será preciso perguntar se haverá recursos para todos e como deixar de caracterizar essas operações como distribuição de subsídios e, como tal, evitar a sua condenação na Organização Mundial do Comércio (OMC).Qualquer que seja a saída para o setor, o impacto nas filiais brasileiras será inevitável. Elas são parte da massa falível. O mínimo que se espera que aconteça é a retração do consumidor. Ele contará até cem antes de comprar um veículo cujo produtor esteja tão ameaçado. ConfiraDesabaram - Os preços do petróleo levaram 16 meses para subir de US$ 60 por barril de 159 litros para US$ 147, que foi o pico alcançado em julho deste ano. Mas levaram apenas 4 meses para fechar abaixo dos US$ 60 por barril, atingidos ontem.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

12 de novembro de 2008 | 00h00

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