O Google Maps e as disputas de fronteira

Ferramenta exibe fronteiras diferentes a públicos diferentes, dependendo da localização geográfica; a Crimeia é um exemplo desse tipo

Economist.com

05 de setembro de 2014 | 21h35

As fronteiras internacionais são frequentemente difíceis de acompanhar nos mapas. Características topográficas tangíveis podem ser observadas nas imagens por satélite, mas as fronteiras entre muitos estados não são demarcadas e consistem em objeto de intensa disputa. Os perímetros podem ser formados por rios e estradas, mas podem também cruzar montanhas, desertos e zonas de conflito. 

Algumas regiões fronteiriças têm sido motivo de luta há centenas de anos, mudando de mãos dúzias de vezes. E alguns países, como a Índia, envolvida numa série de disputas territoriais, têm leis rigorosas especificando onde suas fronteiras devem ser representadas nos mapas. Assim sendo, como o Google Maps, a ferramenta de mapas mais consultada do mundo, lida com as fronteiras disputadas?

Todos os mapas são construções políticas: até o mais cuidadosamente desenhado deles revelará alguma forma de distorção geopolítica. Quando os cartógrafos tradicionais dos mapas impressos se veem diante de fronteiras questionáveis, eles têm à disposição algumas opções, que envolvem o juízo do cartógrafo. Dependendo do propósito e contexto do mapa, pode-se optar por uma fronteira marcada com linha tracejada ou sombreamento diferenciado para destacar a disputa. 

Pode-se mostrar duas fronteiras, cada qual refletindo uma reivindicação nacional, com a terra em disputa entre elas. Ou pode-se optar por traçar uma linha em negrito definitiva, ignorando as disputas territoriais ou tomando deliberadamente o partido de um lado ou de outro. A revista The Economist costuma publicar vários mapas por semana, com frequência envolvendo regiões em disputa. Num mapa da Europa publicado no dia 30 de agosto, mostramos a Crimeia listrada em duas cores, por exemplo, para representar a disputa territorial entre Ucrânia e Rússia. Decisões como essa são constantemente analisadas.

O Google Maps conta com o mais abrangente conjunto de mapas do mundo, e também o maior número de leitores, com mais de um bilhão de usuários por mês. Este público global levou o Google a produzir várias versões locais dos mapas dos 200 países cobertos pelo serviço. Além de serem escritos em idiomas diferentes, os mapas também confirmam o noticiário local. Na maior parte do tempo, o Google age como um cartógrafo tradicional: linhas cinzentas contínuas representam fronteiras internacionais; linhas cinzentas pontilhadas mostram fronteiras "provisórias" ou "definidas em tratado"; e linhas cinzentas tracejadas indicam fronteiras "em disputa" entre países. 

Crimeia. Mas o site Disputed Territories, criado pelos estudiosos do Massachusetts Institute of Technology, identifica 12 regiões nas quais o Google exibe fronteiras diferentes a públicos diferentes, dependendo de sua localização geográfica. A Crimeia é um exemplo desse tipo: quando vista no Google Maps num navegador na Ucrânia, nenhuma fronteira nacional é exibida, incluindo a região no território soberano do país (imagem do meio, veja acima). Mas, quando vista de um computador localizado na Rússia, a península é demarcada por uma linha cinzenta contínua, como parte da Rússia. 

Aqueles que acessam o mapa de outras partes do mundo veem uma linha tracejada, reconhecendo o status incerto da Crimeia desde a sua anexação pela Rússia em março. O Google também mostra seis versões das fronteiras em torno das Ilhas Spratly, reivindicadas por Brunei, China, Taiwan, Malásia e Filipinas.

Quando o Google lançou seu serviço de mapas em fevereiro de 2005, a empresa disse que os "mapas podem ser úteis e divertidos". Mas, uma década depois, as dimensões e o predomínio do Google numa área tão sensível significam que seus mapas são muito mais do que apenas isso. De fato, houve casos em que a empresa e seus mapas foram envolvidos em disputas diplomáticas entre vizinhos pouco amistosos, indicando a autoridade hoje atribuída aos mapas do Google.

A flexibilidade da internet significa que o Google pode escapar de algumas das queixas feitas contra a subjetividade dos cartógrafos. Mas, mesmo com as novas tecnologias, algumas das antigas imitações da cartografia tradicional continuam valendo./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Da Economist.com, traduzido por Anna Capovilla, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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