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'O governo Dilma não ofereceu mudanças', diz gestor de fundos

Para gestor da Deltec, tem sido decepcionante ver as respostas do governo brasileiro aos problemas da economia

Entrevista com

FÁBIO ALVES, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2013 | 02h03

A forte queda registrada ontem na Bovespa, de 4,24% - a maior perda porcentual desde 22 de setembro de 2011 -, é "merecida" e a culpa, além do "desastre" com as empresas X, de Eike Batista, é também do governo Dilma Rousseff, na opinião de Greg Lesko, gestor de recursos da Deltec Asset Management, em Nova York, que investe metade dos US$ 800 milhões sob gestão em bolsas de países emergentes. Lesko deu a seguinte entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado:

Por que a Bovespa registrou uma queda tão brusca?

Infelizmente, por várias razões, essa queda é merecida. O desastre de Eike Batista está causando uma interrupção na disponibilidade do crédito para muitas empresas - bancos e construtoras imobiliárias, aliás, todas as empresas envolvidas com financiamentos estão sendo atingidas duramente. Quando uma companhia grande, como o grupo X, vai à bancarrota, os investidores não querem comprar os bônus emitidos pelas empresas brasileiras e isso é um problema para quem precisa levantar capital. Assim, as ações de empresas com necessidade de levantar recursos estão sendo afetadas.

Por que a ausência de compradores de papéis de dívida acaba afetando o preços das ações em bolsa?

Companhias que tomam muito dinheiro emprestado, como as construtoras, vão ter de pagar mais caro pelo dinheiro, isso se essas companhias conseguirem ao menos levantar recursos. Não tem havido emissão externa de bônus pelas empresas brasileiras há muito tempo. Quem depender de financiamento externo vai ter problemas.

O problema com as empresas X é a única razão pela queda forte da Bovespa?

Não. O desempenho das bolsas de países emergentes tem sido fraco em geral, daí os investidores terem sacado dinheiro das bolsas emergentes. Além disso, a presidente Dilma não tem feito nada com o seu Ministério, tem havido protestos nas ruas, os brasileiros têm exigido mudanças e Dilma não ofereceu nenhuma mudança. Outro problema para os investidores: a Eletropaulo, por exemplo, teve reajuste zero das suas tarifas. Assim, não parece que o capitalismo será a solução dos problemas que o Brasil tem; pelo contrário, parece que teremos mais mão pesada e interferência do governo. É muito decepcionante ver a resposta do governo aos problemas.

Depois de uma queda tão forte da Bovespa, o senhor se sente tentado em entrar comprando ações brasileiras ou a saúde da economia e da Bovespa é motivo para afugentá-lo?

Nenhuma das duas coisas. Em circunstâncias específicas, as ações poderão ficar atraentes, mas a análise será com base em cada ação, e não no índice Bovespa como um todo, pois não compramos o índice. Ainda haverá muitas empresas que ficarão sob pressão em relação ao que está acontecendo no Brasil. Não vejo nada que o governo esteja fazendo para melhorar as coisas. É um governo muito populista e de esquerda. O que o Brasil precisa neste momento é de soluções do lado da oferta da economia, como a melhora da infraestrutura. Nós não queremos ver mais gastos fiscais como a solução dos problemas da economia, o que é exatamente a primeira coisa que vem à mente deles (o governo).

O senhor ainda investe no mercado acionário brasileiro?

Sim, mas não no nível que eu estava há seis meses. Há alguns setores da economia brasileira que estão protegidos do que está acontecendo. O meu nível de investimento na Bovespa está no menor patamar em muito tempo.

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