O governo enfim percebeu: menos é mais

O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2015 | 02h05

ANÁLISE: Paulo Resende

O pacote de concessões para a logística de transportes no Brasil, lançado pelo governo federal ontem, teve como pano de fundo a necessidade de se retomar investimentos e garantir o crescimento sustentado. A premissa fundamental do pacote é a participação da iniciativa privada, jogando por terra o paradigma histórico que colocava o orçamento público como mola propulsora capaz de suprir as necessidades do País. A partir daí três pontos se destacam no plano: a presença, pela primeira vez, de projetos estruturantes que, se concluídos, vão criar corredores logísticos estratégicos para vários setores econômicos; a urgência na redução da participação do governo como sócio operador dos projetos; e a certeza de que grande parte do pacote terá o próximo governo como responsável.

Sobre a qualidade dos projetos, o governo federal parece ter chegado à conclusão de que "menos é mais". É melhor focar em um número menor de projetos que tenham um propósito estratégico diferenciado do que ter um emaranhado de intenções de projeto, como propôs o PAC, que confunde o investidor. As concessões anunciadas, se operacionalizadas, vão conduzir a logística de transportes do Brasil a um novo patamar, contribuindo decisivamente para a adição de valor aos corredores de exportação, como no caso dos granéis agrícolas, e ao desenvolvimento macrorregional.

Para alguns gestores públicos, é estratégico dividir a gestão das concessões entre governo e iniciativa privada. Essa linha de pensamento, porém, deverá ser abolida do pacote, pois o governo não inspira confiança como sócio. O sucesso das medidas depende da disposição do setor público em deixar essa crença de lado e assumir o seu papel de regulador e fiscalizador da qualidade dos serviços prestados pelas concessionárias.

Finalmente, é preciso ter em mente que a operacionalização das concessões e a retomada do crescimento a partir dos projetos anunciados ocorrerá no médio prazo. Não veremos grandes resultados até 2018, e a maior fatia do plano será de responsabilidade do próximo governo. A sociedade terá, portanto, que assumir a continuidade do plano para que não tenhamos, em 2019, o anúncio de mais um pacote de infraestrutura logística.

* Coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral

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