'O governo precisa se virar para resolver'

O especialista em contas públicas Raul Velloso diz que foi uma frustração o governo não fazer superávit primário. Segundo ele, o ajuste está "frouxo" e é preciso mais comprometimento com a saúde da economia.

Entrevista com

Raul Velloso, especialista em contas públicas

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2015 | 02h02

Como sr. viu o anúncio do déficit primário neste ano?

É um desastre em relação à programação original. Saímos de uma previsão de superávit de 1,1% (em relação ao Produto Interno Bruto, PIB) para um déficit de 0,9%. É um desajuste de 2 pontos do PIB. É muito ruim do ponto de vista das expectativas. Antigamente, o FMI chegava aqui, traçava um programa de ajuste e o governo se virava para cumprir. Hoje está um negócio muito frouxo. Não tem nenhum sistema para checar. Se não fosse o fato de ter de por a meta na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), nós não saberíamos de nada. A postura do governo é quase contemplativa. O País está pegando fogo e o governo vem e anuncia um déficit de R$ 51 bilhões, que ainda pode ir a R$ 90 bilhões se incluírem as pedaladas. Não pode.

Houve déficit em 2014 e já se prevê déficit para 2016. O que as contas públicas sinalizam?

Mostram o pouco comprometimento do governo com a saúde da economia. Tem um doente moribundo aí e não aplicam nem uma injeção. Todos os demais problemas que temos hoje decorrem do fiscal: o câmbio disparando, a economia crescendo cada vez menos, o aumento da percepção de risco em relação ao Brasil. Para mim, é incompreensível que tenhamos um ano inteiro de fracasso no ajuste.

E como se resolve?

Há um consenso de que a economia não se recupera antes de 2017. Então, a arrecadação normal não vai aumentar. Pode tentar fazer receita extraordinária ou elevar a tributação, mas o governo está dissociado do Congresso.

Se não há melhora do lado da arrecadação, precisa fazer mais cortes? Qual a saída?

O governo precisa rever o que prometeu ao longo deste ano e explicar: olha, isso aqui não deu certo por isto, esse deu errado por causa daquilo. Agora, para resolver o problema, vou cortar isso. Se o Congresso não me ajuda aqui, eu vou por ali. O governo precisa se virar para resolver esse problemão que está paralisando a economia. Essa tarefa é dele.

Notícias relacionadas

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.