O grande arranjo

A tabela ao lado, publicada ontem pelo New York Times, tenta mostrar o quanto os Estados Unidos dependem do capital estrangeiro para financiar seu rombo orçamentário. No final de abril, nada menos que 46,5% dos títulos emitidos pelo Tesouro do país fora de instituições públicas americanas (principalmente fora do Federal Reserve, o banco central americano) estavam em mãos de estrangeiros.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2011 | 00h00

Não está inteiramente correto falar em dependência. Melhor dizer interdependência. Tanto os Estados Unidos precisam importar poupança estrangeira para cobrir seu déficit fiscal como outros países necessitam dos títulos americanos para ancorar aplicações de longo prazo.

Nas últimas semanas, acirrou-se a disputa política sobre a necessidade de ampliar o endividamento do Tesouro americano do limite fixado em lei de US$ 14,3 trilhões. E foi a partir da intransigência do Partido Republicano, na oposição, que, pela primeira vez em 200 anos, o mercado financeiro considerou a hipótese de que os títulos do Tesouro dos Estados Unidos não sejam totalmente honrados.

No mesmo artigo do New York Times, Bruce Bartlett, ex-assessor do governo Reagan, estranha que apenas o governo da China tenha manifestado publicamente preocupações com a elevação do risco de perda de qualidade desses títulos.

Pelos últimos relatórios do Banco Central do Brasil, 89% dos US$ 333 bilhões das reservas externas brasileiras existentes ao final de maio estavam aplicadas em títulos, majoritariamente, do Tesouro americano. Ou seja, o Brasil também seria muito prejudicado em caso de calote.

Ninguém protestou, fora a China, porque a eventual suspensão de pagamentos (default) do Tesouro americano é improvável. E, ainda assim, os protestos das autoridades da China foram mais um ato político do que uma advertência técnica.

As análises sobre o enorme endividamento dos países ricos têm sido feitas com dosagem excessiva de unilateralidade. Não só os Tesouros se endividaram à irresponsabilidade, mas, também, os mercados (e outros países) tomaram os títulos dos países industrializados, por não terem muitas opções. Não fosse a atual montanha de títulos soberanos, não haveria também a formação de reservas externas em tantos países, desenvolvidos (como Japão, Inglaterra e Suíça) ou emergentes (China, Brasil e Rússia).

Como a China é a maior detentora de títulos do Tesouro americano, observadores insistem em que prevalece um arranjo mútuo: a China entra com capitais e os obtém com receitas de exportações e, em troca, os Estados Unidos entram com seu próprio mercado e com a oferta de títulos.

Mas a China não é a única a fazer esse jogo. Outras economias, como a do Brasil, tomam parte nele, ainda que indiretamente. Os juros estão há mais de dez anos em níveis ínfimos no mercado internacional, pois há uma enorme poupança em busca de oportunidades seguras de aplicação - consequência, a um só tempo, da grande redivisão do mercado mundial de trabalho e da crescente incorporação da Tecnologia da Informação. São fatores que derrubam a inflação no mundo rico, ajudam a achatar os juros e criam mercados para títulos que, por sua vez, permitem o megaendividamento dos Estados nacionais.

CONFIRA

Mais um aperto

A escadinha que você tem aqui mostra como evoluíram os juros básicos (Selic), ontem modificados pelo Comitê de Política Monetária (Copom).

Parou por aí?

Não houve surpresas sobre a decisão tomada - alta de 0,25 ponto porcentual, para 12,50% ao ano. O Banco Central retirou do comunicado divulgado a expressão usada após a última reunião, de que a política de aperto monetário prosseguiria "por um período suficientemente prolongado". Isso parece sinal de que a alta dos juros pode parar por aí.

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