Tim Shaffer/Reuters
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O grande jogador

Kirk Kerkorian fez fortuna à moda antiga, com esperteza e tino para os negócios

The Economist

29 de junho de 2015 | 07h36

Ele foi um dos grandes negociantes do século passado. Comprou e vendeu os estúdios MGM três vezes. Fez mais que qualquer outra pessoa para criar a ilha da fantasia de neon que é Las Vegas. Tentou comprar a Chrysler e chegou a ser um grande acionista da Ford e da General Motors. Kirk Kerkorian acumulou todos os penduricalhos que compõem o estilo de vida de um nababo moderno: mansão suntuosa em Beverly Hills, amizades com Frank Sinatra e Cary Grant, três mulheres e um divórcio litigioso que rendeu muitas manchetes de jornal. (A terceira sra. Kerkorian, que só viveu um mês sob o mesmo teto que o empresário, tentou arrancar dele US$ 320 mil mensais para pagar as despesas da filha, até que se descobriu que a menina era fruto de um relacionamento com Steve Bing, um magnata rival.) Apesar disso, Kerkorian era um homem extremamente reservado: evitava a vida social hollywoodiana e só assistia aos filmes que financiava depois que eles entravam em cartaz. Tenista aficionado, ao completar 50 anos passou a se preocupar obsessivamente em melhorar o seu jogo.

Era o protótipo do self-made man: filho de um imigrante armênio, mudou de endereço pelo menos vinte vezes na infância, começou a trazer dinheiro para casa aos nove anos de idade, foi mandado para o reformatório por ter esmurrado o filho de um professor e chegou a ganhar a vida como boxeador: “Kerkorian, o homem da direita carabina”. Então, com a proximidade da guerra, aprendeu a pilotar e arrumou um emprego que consistia em levar bombardeiros canadenses pelos ares do Atlântico Norte até a Escócia, para entregá-los à Royal Air Force britânica. Com o dinheiro que ganhou com essas missões intrépidas, Kerkorian abriu seu próprio negócio: a Trans-International Airlines, que transportava viciados em jogos de azar e celebridades de Los Angeles a Las Vegas. Na companhia aérea, Kerkorian fazia de tudo: trabalhava como mecânico, faxineiro, conferia passagens, pilotava e com frequência se juntava aos passageiros na mesa de carteado.

Sua verdadeira paixão não era gerir empresas, e sim fazer negócios: Kerkorian embolsou mais US$ 100 milhões vendendo, recomprando e tornando a vender sua empresa aérea. Ao se mudar para Las Vegas nos anos 60, acabou inevitavelmente entrando em contato com os mafiosos que infestavam a cidade. Mas, por mais que vasculhassem, a polícia e os jornalistas não encontraram indícios de colaboração com criminosos. Sua audácia o distinguia. Passou a perna em negociantes legendários, como Howard Hughes e Ted Turner. Construiu o maior hotel do mundo três vezes: em 1969, 1973 e 1993.

Com frequência, dava a impressão de agir guiado pela intuição. Fez uma aposta pesada em ações da Chrysler depois de conhecer Lee Iacocca, então CEO da montadora, num autódromo. Mas seus negócios eram permeados por dois grandes temas unificadores: imóveis e prazer. Kerkorian era a personificação de uma grande tradição americana: o faro para identificar a próxima fronteira a ser desbravada, chegar lá antes de todo mundo e comprar os melhores filões por uma pechincha. Ele foi um dos primeiros a perceber depois da guerra que o segmento de lazer iria explodir: as pessoas iriam enriquecer e gastariam o excesso de riqueza se divertindo e viajando. 

Dois negócios realizados quando ele já estava com mais de 80 anos - a aquisição dos resorts Mirage, por US$ 6,4 bilhões, no ano 2000, e do Mandalay Resort Group, por US$ 4,8 bilhões, em 2004 - deram a Kerkorian o controle de mais da metade dos quartos de hotel da Las Vegas Strip (trecho da avenida principal de Las Vegas, onde se concentra a maior parte dos hotéis e cassinos da cidade). Em 2008, sua fortuna era estimada em US$ 16 bilhões, o que fazia dele um dos 50 indivíduos mais ricos do mundo; mas encolheu para cerca de US$ 4 bilhões depois da crise financeira.

Antes, negociantes audaciosos como Kerkorian eram mais comuns nos conselhos de administração das corporações ocidentais. Hollywood foi criada por imigrantes europeus, como Sam Goldwyn e os irmãos Warner, que tomavam decisões na base do instinto. Las Vegas vivia repleta de empresários carismáticos. Kerkorian morreu três dias antes de Ralph Roberts, outro filho de imigrantes, que começou com um pequeno negócio de TV a cabo no Mississippi e, por meio de inúmeras transações, conseguiu transformá-lo num colosso corporativo: a Comcast.

Ainda há alguns homens desse naipe por aí - as biografias de Rupert Murdoch e Donald Trump são muito mais ortodoxas que a de Kerkorian, mas ambos têm alma de negociante. De modo geral, porém, eles estão dando lugar a novos tipos de bilionários: os craques em tecnologia, que fazem fortuna à base de sua própria inventividade; e os gênios dos fundos de hedge e de private-equity, que usam engenharia financeira para ganhar rios de dinheiro. Kerkorian disse certa feita: “Eu não estudei, mas entrei no mundo dos negócios muito cedo”. Hoje, porém, é muito mais difícil enriquecer (pelo menos legalmente) sem os benefícios proporcionados por uma formação acadêmica. Nas áreas mais lucrativas, como as de tecnologia e finanças, as qualificações formais são mais ou menos uma pré-condição. 

Mais do que nunca, é extremamente difícil que, depois de largar os estudos, um adolescente comece do degrau mais baixo e vá subindo até ocupar uma suíte executiva.

Ao mesmo tempo, é cada vez mais raro que um self-made man consiga ganhar a vida fazendo negócios à moda antiga. Empresas estabelecidas, com frequência administradas por executivos maçantes, aprenderam a identificar nichos promissores e explorá-los. Os órgãos reguladores e os agentes da Justiça se aperfeiçoaram e conseguem pegar quase todos os que tentam tomar atalhos para subir na vida. Os dois mundos que fizeram a fortuna de Kerkorian - Hollywood e Las Vegas - agora são dominados por caretas corporativos que não põem o pé na rua se não estiverem acompanhados de seus auditores, advogados e relações públicas.

Emergentes. Quem quer conhecer a nova geração de capitalistas intrépidos, precisa olhar para os mercados emergentes, onde o padrão de vida continua melhorando a olhos vistos e os órgãos reguladores são fracos. Na China, o mundo dos negócios é dominado por magnatas pitorescos, que souberam agarrar a oportunidade quando o país legalizou os empreendimentos privados. As corporações tentaculares do Sudeste Asiático são a reunião dos negócios que seus proprietários não param de fazer. O brasileiro Eike Batista perdeu a fortuna que acumulou nos segmentos de mineração e petróleo, e o indiano Vijay Mallya viu sua companhia aérea ir à falência. Mas não será surpresa alguma se os dois homens se levantarem, sacodirem a poeira e refizerem suas fortunas em algum outro lugar. 

Mesmo que isso não aconteça, ainda há uma porção de outros indivíduos com tino de negociante por aí, fazendo fortunas com apostas arriscadas e oferecendo alternativas de entretenimento aos novos-ricos. “Às vezes você perde”, disse Kerkorian certa vez, depois de um de seus reveses ocasionais, “mas é da natureza do jogo. Sempre vai haver outro jogo.” Hoje em dia, os melhores jogos acontecem muito longe de Las Vegas.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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