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Coluna Leandro Miranda: como se moldar à nova economia após a covid-19?

O grande realinhamento

Com a economia americana dando sinais de revigoramento, mas o crescimento europeu e japonês parecendo capengar, todos concordam que o dólar deve subir em relação ao euro e ao iene. O único problema é que, quando todos concordam em que um particular movimento cambial é iminente, todos tendem a estar errados.

Barry Eichengreen, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 02h05

Prever taxas de câmbio é temerário, algo como prever o mercado acionário. Isso pode ser atestado por várias gerações de economistas internacionais eminentes que apostaram seu dinheiro onde diziam que ele deveria estar ou, mais precisamente, no que suas teorias pregavam, e perderam até as calças. No caso atual, a presunção de que o dólar está destinado a subir se baseia na crença de que, com o crescimento americano acelerando e o mercado de trabalho se fortalecendo, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) em breve começará a elevar as taxas de juros. A Europa, ao contrário, está atolada na recessão e em risco de deflação. Em Jackson Hole, no mês passado, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, sinalizou que o banco deve responder com um afrouxamento quantitativo. A recuperação do Japão, por sua vez, está perdendo embalo na esteira da elevação do imposto sobre consumo no início deste ano, aumentando a probabilidade de que o Banco do Japão reforce suas políticas expansionistas.

Taxas de juros mais altas e aperto do crédito nos EUA em relação a Europa e Japão terão o efeito de tornar os EUA um lugar mais atraente para se investir. E, com isso, virão mais dólares.

Ademais, esse realinhamento de moedas é amplamente visto como uma coisa boa. Com os gastos estagnados na Europa e no Japão, moedas mais fracas nesses países impulsionarão as exportações. Com a demanda americana forte, os EUA terão de depender de importações para suprir o consumo e investimento adicionais, senão a inflação vai acelerar, obrigando o Fed a endurecer ainda mais rapidamente e acabar prematuramente com a festa. O déficit comercial americano poderá aumentar em consequência do dólar mais forte, mas esse é um pequeno preço a pagar para manter o crescimento.

Portanto, o que poderia dar errado? Para começar, há o fato inquietante de que taxas de câmbio se modificam com rumores, não com fatos. O euro já caiu em relação ao dólar na última primavera (no Hemisfério Norte), quando a inflação na zona do euro desceu abaixo de 1% e surgiram expectativas de que o BCE reagiria com alguma forma de política monetária heterodoxa. Mais recentemente, ele caiu de novo, em resposta ao discurso do presidente Draghi em Jackson Hole.

Em outras palavras, a expectativa de que o BCE está prestes a fazer alguma coisa pouco convencional já chegou ao mercado. Somente se os Draghi & Cia forem ainda mais agressivos do que os investidores atualmente esperam o euro cairá ainda mais. Por enquanto, a queda da moeda foi limitada, de cerca de 5% ante o dólar desde o início do verão (europeu), e 3,5% ante uma cesta mais ampla de moedas, refletindo expectativas de que as ações do BCE serão modestas. E 5% é muito pouco para pesar numa economia europeia encrencada. Uma ação radical do BCE seria uma história diferente, mas há várias razões - ideológicas, políticas e estruturais - para duvidar de que uma ação radical esteja nos planos.

O iene caiu mais e mais rápido, perdendo cerca de um quinto do seu valor ante o dólar desde o advento da Abenomics (como é conhecido o programa do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe para a recuperação econômica do país). Mas os benefícios para o Japão têm ficado aquém do esperado. Como as corporações japonesas terceirizaram e internacionalizaram boa parte da produção manufatureira, as exportações japonesas têm reagido com lentidão. O crescimento letárgico das exportações de veículos motorizados diz tudo.

As exportações de carros, caminhões e ônibus estão estagnadas ante o pano de fundo de uma forte demanda global de veículos por nove meses seguidos. Isso é um recado para a zona do euro não esperar demais apenas da desvalorização da moeda. A Abenomics oferece, portanto, uma lição importante para a Europa: uma política de expansão monetária provavelmente só ajudará se vier acompanhada de uma reforma estrutural concomitante.

Dito isso, há um cenário em que o euro e o iene poderiam cair fortemente ante o dólar. Essa seria uma perturbação geopolítica grave, sendo um conflito aberto entre a Rússia e a Ucrânia apoiada pela Otan o candidato óbvio. O suprimento de energia para a Europa Ocidental e o Japão sofreria ruptura. As exportações europeias e japonesas ficariam ainda mais deprimidas. Haveria uma fuga para o dólar, refletindo o status deste como a única moeda realmente segura, a singular liquidez dos mercados financeiros americanos e a segurança conferida ao poderio militar americano.

Neste cenário extremo, o dólar significativamente mais forte do que os entendidos preveem se materializaria. Mas os problemas geopolíticos que produziriam esse resultado significariam tempos ainda mais duros na Europa, no Japão e, também, nos Estados Unidos. Vamos esperar que os especialistas que preveem um dólar significativamente mais forte estejam errados, como já estiveram em outras ocasiões. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

PROFESSOR DE ECONOMIA E CIÊNCIAS POLÍTICAS NA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, EM BERKELEY

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