Tiago Queiroz/Estadão
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O hedge do café

Café barato, chocolate caro, mares quentes por conta do El Niño, com risco de tufões, e um mercado agitado

O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2015 | 02h06

Durante três meses no ano passado, o preço do café arábica se comportou como uma criança que tivesse tomado algumas xícaras de café expresso, dando um salto alucinado que o fez chegar a US$ 2,27 a libra (US$ 5 o quilo) em outubro - valor mais alto desde 2011. O bode era inevitável: de lá para cá, o preço do café despencou, passando três dias abaixo de US$ 1,28 no mês passado. Nas últimas semanas, observou-se uma recuperação, pequena, porém constante - mas a calmaria deve ter vida curta.

As razões da flutuação são bastante simples. No ano passado, uma seca atingiu os cafezais do maior produtor de café do mundo: o Brasil. Mas nesse meio tempo a moeda brasileira se desvalorizou, levando os cafeicultores a desovar os estoques, já que o valor em reais das vendas denominadas em dólares agora é maior. No fim de 2014, as exportações brasileiras começaram a aumentar de forma significativa, mantendo os preços do mercado internacional em baixa, apesar do volume menor de exportações provenientes dos segundo e quarto maiores produtores mundiais (Vietnã e Indonésia).

Por sua vez, nos últimos meses os preços do cacau só fazem subir. No mercado futuro, depois de passar nove meses morro acima, a cotação chegou a US$ 3,25 mil a tonelada. Em maio, segundo Mark Keenan, do banco francês Société Générale, o cacau teve o segundo melhor desempenho entre as commodities agrícolas - resultado, em grande medida, de uma revisão para baixo nos cálculos da Organização Internacional do Cacau (ICCO na sigla em inglês) para a colheita desta estação. Faz quase uma década que a demanda dos mercados emergentes mantém os preços do cacau numa gangorra de altas e baixas. Como observa Laurent Pipitone, chefe da divisão de economia e estatística da ICCO, o consumo de cacau tem forte correlação com a prosperidade econômica: conforme as pessoas enriquecem, tendem a consumir mais chocolate.

E há o risco de que as águas agitadas dos mercados de café, cacau e outras commodities agrícolas em breve fiquem ainda mais revoltas. Em maio, a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), órgão do governo americano, anunciou ter começado a observar "condições fracas e moderadas associadas a um El Niño" - flutuações na temperatura da água do Oceano Pacífico que servem como prenúncio de condições climáticas atípicas.

O El Niño geralmente produz ciclones mais violentos, chuvas mais fortes e temperaturas mais elevadas em grande parte da América do Sul e do leste da África, assim como índices pluviométricos abaixo da média - às vezes, secas - no Sudeste Asiático e em partes da Austrália. Segundo a NOOA há 90% de chances de que o El Niño se estenda por todo o inverno deste ano e 85% de chances de que dure até 2016.

Um estudo da ICCO mostra que o El Niño tende a reduzir a produção mundial de cacau em aproximadamente 2,4%, por conta, em grande medida, de uma queda acentuada nas colheitas da Costa do Marfim, maior produtor mundial da commodity. A safra menor tende a empurrar os preços para cima, em média, 1,7% em cada ano em que se observa a ocorrência do fenômeno climático.

No caso do café, os efeitos são menos nítidos. Chuvas fortes este ano podem beneficiar as colheitas na América do Sul, o que ajudaria a manter os preços em baixa. Mas os cafezais do Sudeste Asiático serão prejudicados, caso a região passe por um período de seca; e se as chuvas na América do Sul se estenderem por muito tempo, a colheita do ano que vem também pode ser afetada negativamente.

Outras commodities em risco são o óleo de palma (azeite de dendê), de que Indonésia e Malásia são os maiores produtores; o arroz, cuja produção mundial está concentrada no Sudeste Asiático; e os segmentos de trigo e carne bovina da Austrália. Receia-se inclusive que furacões e tufões causados pelo El Niño prejudiquem o transporte de cargas no Pacífico, afetando também os preços de outras commodities.

Por outro lado, os investidores devem estar lembrados de que no ano passado os alertas sobre a formação de um El Niño incipiente acabaram se mostrando infundados. Em suma, ao longo dos próximos meses as variações na temperatura das águas do Pacífico devem manter o mercado agitado, como uma criança pulando de um lado para o outro depois de tomar algumas xícaras de café expresso.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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