Estadão/Marcos de Paula
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O homem que cunhou o termo 'Belíndia'

Um paladino do combate à inflação ganha uma cadeira de imortal

The Economist, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2017 | 16h21

Os brasileiros que se lembram da hiperinflação dos anos 80 festejaram a notícia, veiculada no último dia 7, de que os preços no País tinham subido só 4,57% nos doze meses encerrados em março. Há sete anos a inflação não ficava tão perto da meta de 4,5% estabelecida pelo Banco Central. Por uma feliz coincidência, no mesmo dia um dos arquitetos do Plano Real vestiu o fardão verde, bordado a fio de ouro, dos “imortais” da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Edmar Bacha é apenas o terceiro economista a ingressar na augusta instituição, cujas 40 cadeiras vitalícias são reservadas a intelectuais maiúsculos e virtuoses da palavra. Sua eleição, em novembro do ano passado, foi uma das mais disputadas nos 120 anos da ABL. É possível que também seja um sinal dos tempos.

Além de terçar armas com a inflação, Bacha foi presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Posteriormente, foi consultor do banco de investimentos Itaú BBA. Além disso, tem intimidade com as palavras. Em “O Economista e o Rei da Belíndia: uma fábula para tecnocratas”, ensaio publicado em 1974, Bacha retratou o Brasil como uma Bélgica pequena e rica, cercada por uma Índia gigantesca e pobre. Em “O Fim da Inflação no Reino de Lizarb” — país dos contrários, “onde tudo funcionava de trás pra frente” — atacou a noção de que a alta dos preços causava déficits fiscais.

Nem todos concordam que o inventor de “Belíndia” faça jus à imortalidade. Os romancistas e poetas da ABL torcem o nariz para os áridos tratados de economia que, a seu ver, constituem a maioria das obras de Bacha. Seu liberalismo econômico é anátema para humanistas enamorados de Karl Marx.

Mesmo assim, ele derrotou o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Eros Grau (que é autor de narrativas eróticas). O resultado apertado da eleição (vencida por 18 a 15 por Bacha) expôs a divisão entre a “ala cultural” da ABL e seus integrantes que fizeram carreira na esfera pública, entre os quais se incluem dois ex-presidentes da República. Em novembro, o cientista político Francisco Weffort e o poeta Antonio Cicero enfrentaram-se numa disputa que terminou empatada, resultado inédito na história da instituição, obrigando a realização de nova eleição, com novos candidatos. A cadeira acabou ficando com o escritor e diplomata João Almino.

A eleição de Bacha talvez seja um indício de que o liberalismo econômico está recuperando terreno no País. Em março, manifestantes foram às ruas para pedir a privatização de empresas estatais e a desregulamentação da economia, entre outras coisas. É possível que o governo de Michel Temer venha a ser um dos mais liberais que já houve no Brasil. A ABL também começa a ceder ao pragmatismo econômico. Dizem que alguns imortais se entusiasmaram com a ideia de eleger um economista capaz de cuidar dos investimentos da instituição.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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