O IGP-M puxa pra baixo

O IGP-M vai produzindo surpresas sucessivas e, se continuar assim, pode obrigar o Banco Central a mudar seus planos em relação à política de juros.No Brasil, há inúmeros índices que medem a evolução dos preços. O Índice Geral de Preços (IGP), o mais antigo deles, foi até 1999 o medidor oficial de inflação. O "M" foi acrescentado à sigla em 1989 porque vários reajustes de preços tinham de ser feitos ao fim de cada mês, como prestações habitacionais, aluguéis, contratos de prestação de serviço e financiamentos. E um índice mensal mais preciso, como o IPCA, não pode ser pesquisado antes de completado o mês e só fica disponível em cerca de uma semana.Por isso, o IGP-M cheio sai sempre ao fim de cada mês. Mas, a cada dez dias, a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o organismo encarregado dos levantamentos e do processamento dos dados, fornece uma prévia para facilitar as previsões.A novidade é a de que o IGP-M está mostrando a inflação despencando para o negativo. O índice divulgado ao final de julho mostrou um acumulado em 12 meses de -0,67%. E, ontem, os números correspondentes aos primeiros dez dias de agosto (primeiro decêndio) apontaram um valor negativo ainda maior (-1,02%). Não faz nem três semanas, os analistas não contavam com números assim. O IGP-M é um coquetel. Leva 60% de preços no atacado; outros 30% de preços no varejo (custo de vida); e outros 10% de preços na construção civil, que entraram na fórmula como representante do setor de serviços.Por causa do peso alto de preços no atacado, o IGP-M foi descartado como medida para a política de metas de inflação, hoje desempenhado pelo IPCA.Até a primeira semana de agosto, os preços no atacado acumularam inflação negativa de 5% e, em 12 meses, negativa em 3,9%. E por que caíram tanto os preços no atacado? As explicações estão no mesmo caldeirão: o dólar, que define os preços dos importados, mergulhou, neste ano, mais de 20% em relação ao real. Além disso, a redução do consumo provocada pela crise global puxou para baixo os preços dos produtos industrializados. E, ainda, no mercado brasileiro, a indústria foi apanhada com estoques excessivos e teve de desová-los para garantir capital de giro.Aos que estranhavam resultados tão diferentes acusados por índices de inflação, o professor Julian Chacel, da FGV, tinha uma observação bovina. "Toda vaca bebe água", dizia. "Tem a que bebe antes e tem a que bebe depois. Mas, uma a uma, todas vão ao bebedouro."Queria ele dizer que, considerado certo intervalo de tempo, todos os medidores tendem a confluir para o mesmo ponto. A vaca que, em geral, bebe antes é a dos preços no atacado. A do custo de vida sempre vem atrás, posto que os negócios no varejo ocorrem depois dos no atacado.E aí chegamos à moral da história. Se é assim e se o atacado em geral antecipa o que está ocorrendo no mercado, também se pode esperar que o IPCA, o medidor mais abrangente dos preços no varejo, mais dia menos dia continuará a acusar recuo proporcional. É esperar pela confirmação desse movimento para reforçar as apostas de que o Banco Central reverá suas intenções e será levado a continuar sua política de afrouxamento dos juros.ConfiraPouco mudou - No balanço das decisões tomadas ao longo da crise que não chegaram a ser implantadas, alguém ainda vai enfileirar as dezenas e dezenas de resoluções colecionadas nas reuniões de cúpula.Mais regulação, saneamento dos bancos, recriação do sistema financeiro internacional, novas funções para o FMI, retomada imediata das negociações comerciais no âmbito da Rodada Doha e tanta coisa. Quanto disso foi para valer e vai funcionar? E, no entanto, os senhores do mundo discutiram e assinaram tudo. Vai que só fizeram teatro? E talvez não tenha sido preciso mais.

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